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BEM-ESTAR
Pela lente do amor
Aceitar o próprio corpo e as limitações
impostas pela vida ou reconhecer-se diferente dos outros
é uma fonte inesgotável de paz. Mas nem sempre é fácil.
Olhar a vida pela lente do amor foi o desafio aceito e vencido
por três pessoas que, contando sua história, revelam os
muitos caminhos para viver de bem com o espelho, consigo
mesmo e com tudo que está ao redor. |
O espelho quase sempre é um vilão na adolescência,
quando a imagem refletida mostra que aquele corpo não se enquadra
no padrão convencional de beleza. Mocinhas gorduchas, desajeitadas,
com rosto identificado por uma coleção de espinhas ou um par
de óculos - ou os dois ao mesmo tempo - muitas vezes até evitam
seu reflexo. Não foi diferente com a escritora carioca Márcia
Frazão, 51 anos. Na adolescência, ela bem que tentou domar as
madeixas repuxando e alisando os fios ondulados. Também procurou
disfarçar uns quilinhos a mais espremendo o corpo dentro de
vestidos copiados de modelos usados por atrizes como a francesa
Brigite Bardot. O problema é que, quanto mais ela se esforçava
em ser Cinderela, mais a Gata Borralheira aparecia. Em seu último
livro, Manual Mágico do Amor (ed. Bertrand Brasil), Márcia conta
o glorioso momento de sua virada. "Eu me dei conta de que não
era legal ficar tentando me modificar", diz a autora. O estopim
da tomada de consciência foi a exclusão de seu nome da lista
de convidados de um baile de debutantes. Uma amiga revelou o
motivo: ela não era "bonita o suficiente". Márcia tinha então
14, 15 anos. Em vez de fugir do espelho, decidiu mudar de estratégia.
Começou a enfrentá-lo. Mais que isso, passou a desafiá-lo e
também a brincar com ele. "Muito bem, não sou nenhuma atriz
de cinema, mas tenho outros encantos", argumentava diante da
imagem redescoberta. Fitando-se com um pouco mais de atenção,
reconhecia em seus traços particularidades interessantes herdadas
de seus familiares. A maior parte, "mulheres gauches", como
ela diz, longe de se encaixar nos rígidos padrões da estética.
O segredo da aceitação
Auto-estima. Eis a palavra-chave presente
em grande parte das histórias em torno de processos de auto-aceitação.
Segundo a psicóloga e terapeuta familiar Adelaini de Toni, de
São Paulo, quanto mais a auto-estima estiver em alta, maior
a possibilidade de aceitar a realidade como ela é - e muitas
vezes até transformar as supostas limitações em benefícios.
"A preocupação com a aparência geralmente fica mais acentuada
na adolescência. Mas os modelos exteriores não são um drama
para aqueles que viveram essa fase mais confiantes, seguros
e curiosos em relação às coisas novas", sinaliza a psicóloga.
O contrário, de acordo com ela, pode ocorrer com os mais frágeis
e medrosos, que costumam enfrentar as mudanças com dificuldade.
Nesse caso, a chamada "volta por cima" é auxiliada pela terapia
e pela descoberta de novas potencialidades. "Se a pessoa estiver
fortalecida, são grandes as chances de encontrar outras qualidades,
além das valorizadas pela cultura. Aí a criatividade é a saída
mais saudável", assegura Adelaini.
Márcia Frazão, por exemplo, foi capaz de
reconhecer-se através das ancestrais que tanto admirava. Ela
não se cansava de resgatar relíquias, escarafunchando nos armários
cheios de peças antigas: um colar da bisavó aqui, um prendedor
de cabelo da vovó acolá. E sempre corria ao espelho para provar
as "novidades". Foi assim que Márcia encontrou seu estilo -
o que a tornou ainda mais esquisita aos olhos das normalistas
que não se atreveriam a dobrar uma esquina usando um chapéu
da tia. Ela desistiu das roupas que todas usavam. Não se tornou
mais popular - mas também já não se importava com isso. "Eu
estava satisfeitíssima. Nunca mais me preocupei em andar na
moda. E continuo até hoje usando coisas que agradam a mim e
não necessariamente aos outros."
"Sim, eu posso ser eu mesma"
A atriz Valéria Sândalo, 33 anos, de São
Paulo, também sentiu um grande alívio quando percebeu que podia
ser autêntica. Valéria sempre foi gorda. Na adolescência, até
que se esforçou para ser uma garota magrinha. Não chegava a
se sentir retraída pelo excesso de peso - na verdade, queria
mesmo ser magra para agradar aos meninos. Ela encarou um regime
no mesmo período que tentou se transformar numa mocinha "meiga
e delicada" - metamorfose bem complicada para quem tinha sido
uma criança de personalidade forte. Acabou não conseguindo nem
uma coisa nem outra. A conquista de Valéria foi além: ela acredita
ter desenvolvido um grande amor-próprio: "Eu não demorei para
perceber que nunca seria padrão de nada", admite a atriz, que
atualmente faz o papel de uma bruxa bem-humorada na novela Acampamento,
da Rede Record de Televisão. Valéria tem 1,79 m de altura e
120 kg. Ela nunca foi a um spa e adora usar tudo o que as revistas
de moda desaconselham às gordas - roupas justas, decotadas e
transparentes. Está sempre de salto alto. E já foi clicada por
fotógrafos famosos, como Bob Wolfenson. Valéria posou nua algumas
vezes e tirou a roupa em uma peça na qual contracenava com a
atriz Isis de Oliveira, um ícone de beldade. Na verdade, ela
se sente bonita - como de fato é - e não tem vergonha do corpo.
"Muitas vezes, sou chamada para atuar em papéis feitos para
gordas. Não me incomodo porque também rolam outros trabalhos.
O que me dá certa aflição é o assédio de homens que querem se
relacionar com gordas por puro fetiche. Sou uma pessoa e não
um tipo", diz. Por outro lado, ela aprendeu a não se sentir
rejeitada por causa de gente que não demonstra o mesmo interesse
por mulheres fora do padrão convencional. "As pessoas têm suas
preferências. Também prefiro homens morenos, não muito magros
e mais velhos. Mas felizmente não estou presa a um único modelo.
Afinal, a pessoa acaba se sobrepondo ao seu físico", afirma
ela, que já foi casada, teve muitos namorados e agora procura
um parceiro com "compatibilidade em termos de bom humor".
"Vire-se, meu filho!"
O amor da família é fundamental na batalha
que um adolescente possa eventualmente travar contra a rigidez
dos padrões estabelecidos. E essa fase pode ser decisiva. Essa
é a opinião do professor de música e historiador paulista Luiz
Ade, que já ensinou gaita a mais de 5000 alunos. Ele nasceu
com uma forte deficiência na visão direita e, aos 7 anos, perdeu
um dos braços por causa de um erro médico. Mas acredita que,
em sua vida, dois acontecimentos o salvaram da autopiedade.
O primeiro foi a mãe nunca permitir que ele se tornasse dependente
dela. "A frase que mais ouvia era 'vire-se, meu filho!'. A princípio,
eu odiava quando ela se recusava a me ajudar a amarrar o sapato.
Custei a entender que ela estava incentivando minha autonomia",
lembra ele. O outro fato marcante foi ter visto a primeira namorada
chorando quando ele terminou o namoro. Tinha 14 anos. "Eu achava
que ela estava comigo por pena. Mas naquele dia percebi o quanto
ela realmente gostava de mim." Luiz Ade casou-se, formou-se
em história e contou com o apoio de muitas pessoas, entre elas,
o renomado físico Mário Schemberg, que em uma ocasião emprestou
dinheiro a ele, anonimamente, por intermédio de um bedel da
Universidade de São Paulo: "Só fiquei conhecendo quem era o
meu credor quando fui devolver o dinheiro. Mas ele não aceitou.
Apenas pediu para eu usar a quantia ajudando outra pessoa que
estivesse passando por dificuldades". Luiz tem certeza de que
ajudou muita gente, especialmente depois que descobriu a sua
verdadeira vocação. Com mais de quarenta anos, ele foi aprender
música e acabou se tornando professor de gaita. "Eu tenho orgulho
do meu passado, vivo o presente e o futuro a Deus pertence."
Texto: Lina de Albuquerque
Reportagem Fotográfica: Célia Weiss
Fotos: Antonio Rodrigues
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