BEM-ESTAR
Mãos frias? Cabeça quente.


Assim como outras demonstrações físicas de ansiedade e medo, o suor revela a maneira como lidamos com essas emoções. E isso é um bom sinal.
Uma das manifestações mais espontâneas do nosso corpo é suar. Não importam o local, a situação e, às vezes, nem a temperatura. De repente as gotinhas surgem, intensas como em um dia quente ou discretas, porém comprometedoras, deixando mãos e pés úmidos frente a uma situação que cause ansiedade. Apesar de ser uma característica bem peculiar à espécie humana, os processos fisiológicos da transpiração dão margem a uma série de dúvidas mesmo para os especialistas. A maior das questões, por sinal, não se refere à reação do corpo ao sol e ao calor, mas àquela transpiração sem controle que chega em momentos delicados e de vulnerabilidade, como um encontro ou uma reunião importantes, o medo do avião, etc.

Suar é uma necessidade física

A razão para esse mecanismo é térmica: a temperatura do organismo não pode subir acima dos 36,5 °C e, para isso, 4 milhões de glândulas sudoríparas agem rapidamente. Ao primeiro estímulo exterior de calor, esse corpo de bombeiros interno espalha em toda a superfície da pele uma secreção para resfriá-la, composta de 99% de água. Uma pequena parte do suor, aproximadamente 1%, é composta de toxinas que, em contato com as bactérias da pele, acabam provocando o odor. Porém descobriu-se recentemente que há uma transpiração produzida mais rápida e intensamente do que a resultante de uma variação térmica e que, com freqüência, não apresenta um cheiro característico. É a transpiração emocional, que há anos é usada pela medicina tradicional chinesa como forma de diagnóstico. "Assim como a saliva, o suor revela muito sobre o estado emocional da pessoa", diz Mauro Perini, médico especializado em terapêutica oriental da Clínica Yan Sou, de Bragança Paulista, SP.

Suar demais é excesso de yang, ligado a energia masculina, irritação e ansiedade. Suar frio revela a energia yin em demasia - ou que a pessoa se reprime, mascarando a intensidade de suas emoções. "Nesse caso, a temperatura interna diminui rapidamente pelo autocontrole dos sentimentos, mas os membros denunciam a estratégia", diz Perin. "Pés frios e coração quente", portanto, é um sábio ditado popular. Essas mesmas glândulas sudoríparas encarregadas de resfriar o organismo têm fibras nervosas que são estimuladas pela adrenalina, daí a explicação para transpirar com o medo e a excitação, por exemplo. Ou seja, a tal da transpiração emocional não apenas existe, como é um dos mecanismos para extravasar os sentimentos, livre do nosso controle racional. "A sudorese nas mãos e nos pés está sempre associada às pessoas de perfil estressado, ansioso", observa Denise Steiner, coordenadora do Departamento de Cosmeatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia de São Paulo. "Geralmente, esse é um fenômeno ligado à ansiedade, mas é preciso fazer um diagnóstico para saber qual é a causa desse distúrbio em cada paciente", explica Renan Ruiz, médico homeopata de São Paulo.

Para alguns, uma situação de embaraço social, como falar em público, já é motivo para ficar paralisado de medo. Pior se a conseqüência disso for o suor perceptível no rosto e nas roupas. "As pessoas podem dominar a ansiedade a ponto de diminuir o suor", garante Valéria Ferreira Moura, psicóloga e terapeuta corporal. Mas nesse caso não são cosméticos ou fórmulas que vão inibi-lo, mas um tratamento que trabalhe a causa emocional: um mergulho no medo, na ansiedade, na angústia. "A cromoterapia e a massagem são alternativas de tratamento", afirma a psicóloga Valéria. Já o doutor Perini trabalha com o cardápio dos pacientes. "Os alimentos carregam energias yin e yang, e uma dieta que corrija o desequilíbrio, associada a chás e ervas, também ajuda a regular a transpiração." A quantidade de suor varia conforme os elementos genéticos e raciais, mas há outras situações que contribuem para isso, como excesso de peso, alterações hormonais e exercícios físicos. Quem está com uma taxa excessiva de gordura no corpo, por exemplo, acaba retendo muito calor e aí precisa liberar mais água para estabilizar a temperatura. Tomar certos tipos de medicamento, que alteram a circulação sangüínea, também aumenta por conseqüência a temperatura interna. Nesses casos, o suor é uma resposta ao desequilíbrio do sistema circulatório. Por outro lado, não suar também é uma reação do organismo. "Descartado qualquer problema fisiológico com as glândulas sudoríparas, a falta de suor indica que a pessoa não está se abrindo para o mundo, para as sensações e que não quer se expor", observa a psicóloga Valéria Ferreira Moura.

Odores corporais

Embora as glândulas sudoríparas também ajudem a fazer a faxina das toxinas e de outros excessos no organismo, isso não significa que seja aconselhável intensificar a transpiração para eliminá-los. Segundo a dermatologista Denise Steiner, de São Paulo, a maioria das toxinas é excretada mesmo pela urina. "Não adianta forçar a transpiração porque o organismo se auto-regula. Se você tentar aumentar o suor, depois de um certo ponto, o que será liberado é apenas água", diz. O melhor é conviver com o suor. Para isso a cosmética inventou o desodorante, com fórmulas e aromas distintos, mas sempre com a mesma função: contornar os cheiros do corpo. Há o tipo bactericida tradicional, que diminui o odor das axilas, e as fórmulas antitranspirantes (ou antiperspirantes), com ingredientes ativos para obstruir os poros, controlando a saída do suor. Apesar de aparentemente invasiva, a técnica não compromete o processo de controle da temperatura proporcionado pela transpiração porque apenas 1% das glândulas sudoríparas do corpo estão localizadas nas axilas, onde o produto deve ser aplicado. Mesmo assim, é bom lavar a região com água e sabão para remover o cosmético e não usá-lo antes de dormir. As fórmulas que não contêm álcool são as mais indicadas para quem tem propensão à irritação na pele por agentes externos, como os cosméticos em geral.

Quando o suor é um problema físico

Em uma temperatura normal, o corpo elimina aproximadamente 10 litros de suor em 24 horas, explica a dermatologista Meire Brasil Parada, membro da Academia Americana de Dermatologia. "Há pessoas que transpiram muito e o suor não é percebido porque a transpiração é bem distribuída. Outras concentram a produção das glândulas em áreas como as axilas", explica. O processo da transpiração só pode ser considerado anormal em casos de hiper-hidrose, quando é impossível apertar a mão de alguém ou vive-se com a camisa molhada debaixo do braço. Para cada situação, há uma forma de tratamento.

  • Casos leves - Regula-se a quantidade de suor com fórmulas de farmácia de manipulação à base de cloreto de alumínio, que se dissolve no suor. É o mesmo procedimento dos desodorantes convencionais, mas com uma concentração química mais alta para impedir o crescimento das bactérias causadoras do odor.
  • Casos intermediários - Modifica-se o funcionamento da glândula sudorípara por iontoforese, que é um aparelho para transmitir a corrente elétrica e bloquear o funcionamento da glândula. Uso diário.
  • Casos graves - Impede-se definitivamente a atividade das glândulas sudoríparas. A aplicação de toxina botulínica inibe a produção de cetilcolina, uma substância que contrai as células das glândulas. Os efeitos costumam durar de três a seis meses. Outra opção é a cirurgia para retirar as glândulas apócrinas (responsáveis pelo odor), o que deixa uma cicatriz nas axilas.
  • Reportagem: Adriana Teixeira
    Reportagem Fotográfica: Ana Paula Wenzel
    Fotos: Christian Parente




    Março 2002

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