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AUTO-CONHECIMENTO
Fale de você
Contar sua história ou escrever sobre
o que aconteceu no passado e sobre as emoções que mexem
com o presente, faz você organizar sua trajetória e enxergar
novos horizontes. Conversar com um amigo, terapeuta, médico
ou manter um diário é uma forma de se conhecer melhor, aceitar
a vida como ela é e de descobrir quais são seus verdadeiros
propósitos. |
Se a alma explode de alegria ou o peito aperta
de angústia, se a situação parece não ter saída ou se um novo
caminho nos desafia a mudar, o jeito mais antigo, simples e seguro
de rearranjar as emoções é desabafar, relatar os fatos a alguém
de confiança.
Boas conversas
A versão contemporânea e urbana dessas cenas
acontece hoje nos consultórios de psicologia, espaço onde estão
garantidas a liberdade de expressão e a escuta atenta de um
profissional. Porém o efeito transformador de organizar histórias
com base em lembranças ou de fatos recentes pode ser resgatado
numa simples conversa com um amigo, basta que ele seja bom ouvinte
e tenha sua confiança. "Quando se conta a própria história,
ouve-se o eco das emoções, o que está em seu interior se expande.
O que é realmente importante ganha forma e faz sentido. Você
vê as coisas por ângulos que ainda não tinha percebido. Conecta
os fatos com as emoções e aumenta a possibilidade de aceitar
que a vida é um fluxo constante, que as coisas mudam a todo
momento. Esses relatos nos remetem ao que é essencialmente humano:
amar, nascer, morrer, querer, ganhar, perder", diz Ciça Vicente
de Azevedo, psicóloga e escritora de São Paulo. Ela, inclusive,
começou a escrever romances (em vias de publicação) movida pela
necessidade de organizar as emoções. Uma das grandes contadoras
de histórias da atualidade é a psicanalista americana Clarissa
Pinkola Estés. Em seu livro o Dom da História (ed. Rocco), ela
diz: "Uma coleção de histórias de culturas e, especialmente,
de histórias de família é considerada tão necessária para uma
vida longa e saudável quanto ter alimentação, trabalho e relacionamentos
razoáveis (...) As histórias mais poderosas surgem em decorrência
de um sofrimento terrível. Pois a verdade é que grande parte
da história deriva da aflição. Deles, nossa, minha, sua, de
alguém que conhecemos, de alguém que não conhecemos e que está
distante no tempo e no espaço. E no entanto, por paradoxal que
seja, essas mesmas histórias que brotam do sofrimento profundo
podem fornecer as curas mais poderosas para males passados,
presentes e futuros".
Nos relatos, a cura
Os médicos homeopatas sabem disso. Não
é raro que as consultas durem quase duas horas e o tratamento
não comece sem que antes o paciente fale sobre suas origens
familiares, conte com detalhes tudo o que sente no corpo e na
alma. Há 25 anos, o doutor Newton Callegari, de São Paulo, ouve
cerca de sete histórias de novos pacientes por dia e vai anotando
todas as informações. Cada detalhe é importante para acertar
o remédio: "Uma moça se queixou de gastrite e me contou também
que tem medo de espíritos e fantasmas. Aparentemente as duas
coisas não se relacionam, mas esse medo me diz muito sobre a
personalidade dela e tenho de tratá-la diferente daquele que
tem gastrite causada por má alimentação", conta ele. "Às vezes
chego cheia de queixas e saio dessas consultas com a auto-estima
restaurada, com a alma lavada. É ótimo ter alguém que me escute
com interesse e que acompanhe meus passos ao longo dos anos",
confirma a paulista Sonia Trevi, 38 anos, adepta da homeopatia.
O médico confirma que o processo de cura é iniciado nessa conversa,
pois é o momento em que a pessoa volta a atenção para si mesma,
para o que dói, para o que falta, para o que aflige e tem o
outro ouvindo e revalorizando cada etapa de sua jornada pessoal:
"Temos cada vez menos tempo para experimentar isso. Alguns,
especialmente as mulheres, têm a sorte de poder fazer essa revisão
entre amigos ou familiares, mas a maioria só reconstitui sua
biografia num ambiente formal, diante do médico, quando já está
com muita dor, e não precisa ser assim", ressalta Newton.
Caminhar no parque com alguém querido,
convidar um grupo para conversar sem o burburinho dos bares
e restaurantes é um jeito de resgatar esses momentos tão nutritivos,
de clarear as idéias e passar a limpo os sentimentos. A psicóloga
Ciça Azevedo lembra que há pessoas que têm até o dom de contar
com graça suas histórias pessoais, e a escritora Clarissa Pinkola
acredita que as forças maiores do amor, da misericórdia, da
generosidade e da perseverança são continuamente invocadas nessas
ocasiões em que uma pessoa é espelho da outra.
EM VEZ DA TERAPIA
Foi reconstituindo os episódios da infância passada
em São Sebastião, litoral paulista, que Neide Palumbo tornou-se
uma contadora de histórias profissional. Aos 60 anos, cinco
filhos e três netos, ela já se acostumou a ver platéias lotadas
de adultos se emocionando com seus relatos, que resgatam e mantêm
vivas as tradições caiçaras: "Nunca fiz terapia. Minha limpeza
interior é feita quando conto histórias, e aí transformo as
dores em aprendizado e motivo para rir. As histórias falam de
amor, de desilusão, que acontecem na vida de todo mundo. Mas
quando conto revivo tudo. Quem ouve vai imaginando os personagens
de forma única, se emociona e se diverte ao reconhecer sua vida
naquele conto. Isso mexe com o coração e dá muita alegria e
a sensação de ser compreendido", acredita Neide, que se apresenta
em escolas e livrarias do litoral norte e da capital paulista.
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Treze passos para registrar sua história
Tudo que você viveu pode ficar no acervo
do Museu da Pessoa. Trata-se de uma instituição formada
por historiadores e jornalistas sediada em São Paulo e especializada
em registrar histórias de gente comum. Em dez anos de trabalho,
quase 3 mil depoimentos foram gravados em áudio e vídeo.
Parte das histórias está na internet e inclui fotos de família
dos narradores: "Acreditamos que todos têm o direito à preservação
de sua história pessoal, e isso é tão importante quanto
ter casa e comida. A riqueza da rotina não está nos livros,
mas é mantida viva nesses depoimentos únicos e especiais",
diz Rosali Henriques, diretora do museu. Centenas de pessoas,
de 20 a 90 anos, já participaram da experiência. A maioria
capricha no visual e encara o depoimento como se fosse para
uma data especial: "Isso não os torna imortais, mas suas
marcas ficam gravadas para sempre", explica Rosali. O barbeiro
espanhol Júlio Pita, que trabalha no centro de São Paulo
há mais de 50 anos, contou sua vida ao Museu da Pessoa e
diz como foi organizar essa biografia: "Fiquei feliz em
contar o que vivi. Isso tornou ainda mais valiosas as experiências
da minha rotina", diz ele.
Retratos da vida
O Museu da Pessoa indica um roteiro para que você organize
sua própria história, falada ou escrita:
1. Comece por nome, local de nascimento
e origem familiar. 2. Descreva a casa de sua infância.
3. Descreva os membros de sua família,
seus costumes e as relações com parentes próximos.
4. Fale da escola em que você estudou,
de como ela influenciou sua personalidade e as histórias
dessa época.
5. Como você era quando criança?
O que você queria ser quando crescesse? Quais as brincadeiras
preferidas, os maiores problemas, os melhores momentos,
a relação com os amigos, os sentimentos e os desejos?
6. Fale das mudanças de casa ou
de vida que foram mais marcantes.
7. Conte como foi seu primeiro
namoro, primeiro beijo, primeira paixão, qual a pessoa
de que você mais gostou ou gosta, como foi o relacionamento.
8. Conte sobre seu primeiro emprego,
como começou a trabalhar, como escolheu sua profissão,
o que você gosta na sua área, o que gostaria de mudar,
qual o momento profissional mais importante para você.
9. Com quem mora atualmente, qual
a atividade mais importante de sua vida hoje, quais são
suas principais preocupações.
10. Como é sua rotina, o que você
mais gosta de fazer.
11. Descreva sua vida familiar
hoje, se mora com com pais ou não, se é casado, tem filhos
ou netos.
12. Diga qual o seu maior desejo,
o que espera da vida, quais são seus sonhos, qual sua
melhor qualidade, o que você mudaria.
13. Observe o que escreveu e faça
uma avaliação da sua trajetória. Detalhe melhor os episódios
mais importantes da sua vida.
Era um vez... Se você quiser, pode
dar seu depoimento para o acervo do Museu da Pessoa. Ele
pode ser feito pela internet, no site museudapessoa
, ou numa entrevista gratuita feita em São Paulo. As inscrições
são realizadas pelo telefone (11) 3814-4912.
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Texto: Liliane Oraggio
Reportagem Fotográfica: Ana Paula Wenzel
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