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AUTO-CONHECIMENTO
Mais luz em sua sombra
Encarar de frente o medo, o ciúme,
a inveja e os talentos não desenvolvidos é uma atitude difícil,
mas fundamental para quem quer trilhar caminhos mais humanos,
baseados no amor e na verdade. Como disse um poeta, "A luz
nasce da escuridão", e é nos lugares mais sombrios da alma
que estão as chaves para viver em harmonia com todos a seu
redor. |
Luz e sombra, alegria e tristeza, amor e ódio,
perdão e mágoa, saúde e doença, nascimento e morte são fios que
se misturam no tecido da vida. A consciência de que não é possível
viver só de prazeres não é uma idéia terrível, mas um convite
para tirar proveito até mesmo da face mais dura da realidade.
Dentro de cada um de nós, sem exceção, existe uma casa com portas
bem trancadas, onde habitam nossos piores sentimentos - inveja,
desconfiança, traição, ódio, cobiça, medo, amargura, ciúme, crueldade,
desejos de vingança, expectativas frustradas e instintos destruidores.
Então, temos duas opções: fugir da casa ou colocar luz nesses
espaços escuros, em que também ficam guardados muitos tesouros,
ou seja, talentos não desenvolvidos, qualidades que ainda não
afloraram, sentimentos em potencial.
Não é fácil admitir que esse lado terrível
exista: você é um ser humano normal, que carrega em sua personalidade
qualidades e defeitos. Segundo o psiquiatra suíço Carl Gustav
Jung (1875-1961), todas as faces escuras, ameaçadoras e indesejáveis
da personalidade são chamadas de sombra: "Reconhecer e aceitar
seu lado sombrio é o primeiro passo para ter equilíbrio emocional
e melhorar a qualidade de todas as relações. A sombra faz parte
de nosso inconsciente e, se não for encarada, dominará todas
as ações, nos rouba a tranqüilidade para aceitar os ciclos da
vida, nos tira a beleza, o ânimo e, o pior de tudo, a capacidade
de amar, que é justamente o mais iluminado dos sentimentos",
explica Isabel Telles, psicóloga do núcleo terapêutico Portão
Azul, de São Paulo. Quem age dominado pelas sombras está sempre
insatisfeito. Costuma ser um crítico implacável, tem o hábito
de culpar os outros por suas próprias faltas e fica muito incomodado
com as atitudes alheias sem motivo aparente: "Um bom jeito de
identificar a sombra é perceber se você tem reações desproporcionais
em determinadas circunstâncias. Por exemplo, uma exagerada irritação
com crianças pode indicar que seu instinto maternal está bloqueado.
Ou ainda que a inveja por alguém que expressa um talento pode
ser o sinal de que você tem a mesma habilidade escondida em
sua sombra querendo vir à luz", explica Tereza Kawall, psicóloga
junguiana, de São Paulo. Esse jogo de luz e sombra, consciente
e inconsciente é repleto de sutilezas: "Ninguém vai ao encontro
da sombra porque quer, mas porque está muito incomodado com
uma situação ou porque a vida obrigou a enxergar o que não quis
ver. Momentos de separação, perda e estresse são propícios para
que o pior de nós aflore sem controle. Quem nunca teve um chilique?
Esses arroubos de emoção funcionam como um ultimato para que
se mude de atitude, se reformulem valores e se aprimorem as
relações. Às vezes, isso só acontece com a ajuda do terapeuta",
diz Tereza.
Na rotina, o humor e a auto-aceitação ajudam
a levar luz às trevas interiores: "Aceitar as próprias falhas
exige coragem e humildade. Assim os relacionamentos podem ser
mais harmoniosos e deixam de ser baseados em ilusões e expectativas",
completa. Aliás, preste atenção nas pessoas que têm o poder
de tirar você do sério. Com certeza elas estão convidando a
encarar um de seus lados renegados. O próprio Jung costumava
dizer que devemos ser gratos aos inimigos, pois a treva deles
permite enxergar a nossa. "O meio mais eficaz para vislumbrar
a nossa sombra é trabalhando nossas relações. Outras pessoas
nos apontarão o que estamos fazendo a elas. Acatando essas objeções
de coração, chegaremos a um reconhecimento de nossa sombra",
ensina o psicólogo americano John Sanford, autor de Mal, o Lado
Sombrio da Realidade (ed. Paulus). Estar de bem com seus monstros
internos é uma forma infalível de proteção emocional e psíquica,
pois assim você deixa de ser alvo da projeção das sombras de
outras pessoas e interrompe círculos viciosos de inveja, vingança,
descontrole: "Em vez de jogar a responsabilidade de sua infelicidade
no outro - esposa, marido, filhos, colegas de trabalho - ou
projetar nele sua ira, sua crítica, sua tristeza, tente assumir
que o desconforto pertence a você. Assumir o próprio problema
é o início de transformações positivas", diz a psicóloga Tereza.
Por exemplo, se você fica nervoso antes de uma reunião e por
isso espalha o mau humor por todos os cantos, tente respirar
fundo, pense no que está realmente incomodando e tente achar
uma válvula de escape que não prejudique os outros: "Sombras
todos temos, mas não dá para suportar ser alvo da escuridão
de outras pessoas", diz a psicóloga. E nesse caso não vale sair
revidando. A solução é pacífica.
Amor e compaixão
"Estar na sombra de outra pessoa e não reagir
não é falta de genialidade. É assim que se rompem os ciclos
nefastos de vingança", cita o psicanalista americano Robert
Johnson no livro Magia Interior (ed. Mercuryo). Ele lembra ainda
uma frase de Gandhi (líder político pacifista indiano): "Se
você seguir o antigo código de justiça do 'olho por olho e dente
por dente', acabará tendo um mundo cego e desdentado". Lidar
com a própria escuridão tem uma recompensa e tanto, segundo
a psicóloga Isabel Telles: "Você descobre que a grande saída
para tudo é o amor, a compaixão e o reconhecimento de que somos
todos seres humanos com defeitos e qualidades".
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Mais luz em sua rotina
Existem várias atitudes para facilitar
o reconhecimento das sombras e impedir que elas apareçam
de surpresa, prejudicando suas relações amorosas, profissionais
e de amizade. As orientações são da psicóloga paulista
Isabel Telles.
Faça um registro de suas sombras.
Compre um caderno universitário. Em cada matéria, escreva
o nome de um sentimento indesejável: inveja, medo, mágoa,
ciúme, cobiça. Antes de deitar, faça uma retrospectiva
do dia e anote nos respectivos lugares quando e por que
teve contato com essas emoções. E ainda o que pode fazer
para superá-las.
Quando alguém causar muita irritação
ou repulsa, antes de revidar, respire fundo e perceba
o que incomoda no comportamento do outro. Na maioria dos
casos, essa pessoa está expressando algo que você não
aceita em sua personalidade.
Todos os dias, faça uma auto-avaliação
e perceba se conseguiu tomar atitudes que trazem luz para
a vida, como perdoar, compartilhar, compreender, colocar-se
no lugar do outro antes de julgá-lo, fazer críticas de
forma amorosa.
Permita-se não ser impecável, pois
todos os seres humanos erram. Brinque com suas falhas
e, da próxima vez, tente agir melhor.
Para lidar com os medos, escreva-os
- eles se tornam conscientes e você pode dominá-los com
mais habilidade.
Não tome todas as reações dos outros
como pessoais. Assim você deixa de ser alvo da projeção
das sombras alheias e fica mais conectado com sua essência.
Quando sentir ciúme, raiva, inveja,
desejo de vingança, em vez atacar o outro, escreva tudo
que sente num pedaço de papel e queime. Isso dá alívio
e domínio de seus atos.
Agradeça aos seus inimigos, eles
podem estar mostrando o que você não enxerga em si mesmo.
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Texto: Liliane Oraggio
Reportagem Fotográfica: Ana Paula Wenzel
Fotos: Luis Gomes
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