AUTO-CONHECIMENTO
Respeite seus limites e liberte-se do estresse


Saber delegar tarefas, estabelecer prioridades e incluir na agenda momentos de puro lazer é o jeito mais eficaz de respeitar seus limites físicos e emocionais. Especialistas ensinam como você pode cuidar melhor de suas fronteiras e ter uma rotina mais saudável.
Se você está sempre sobrecarregado e cada vez inclui mais compromissos na agenda, se mesmo cansado tem dificuldade de parar, se costuma engolir calado as exigências do chefe, as cobranças do parceiro, o barulho do vizinho - saiba que tudo isso é a matéria-prima do estresse. Reverter esse processo só depende de você, e a falta de um escudo contra toda essa gama de agressões tem um nome: a dificuldade de impor limites. Sintoma típico de quem vive a vida sem prestar atenção em si mesmo: "Impor limites é atestar nossa individualidade. É dizer, 'eu posso ir até aqui, mais, não agüento'. Mas você pode ter passado a vida toda sem aprender sobre si. Então, não sabe o que quer de verdade, o quanto quer, o quanto precisa disso ou daquilo", diz Moacir Amaral Neto, médico e psicoterapeuta antroposófico da Casa 44, de São Paulo. Por isso, fica complicado negar as exigências externas, e a tendência é contrariar sua própria natureza e ultrapassar os próprios limites e as vontades essenciais.

O perfeccionismo é uma conseqüência disso. A auto-exigência exagerada pode ter o efeito contrário. "Quando não consegue se impor, a pessoa começa a ficar insegura. Entra num quadro de menos-valia. E, para compensar essa fraca auto-estima, tenta se superar o tempo todo", alerta Ronaldo Perlato, médico e diretor da Clínica Artemísia, na grande São Paulo. Ele cita o caso de uma paciente: "Quando ela tirou licença no trabalho, três pessoas foram destacadas para dar conta de tudo que ela fazia", diz ele.

A cabeleireira paulista Edna Marchezi Rosa, 40 anos, sabe bem o que é isso. Numa crise de estresse gerada por sua necessidade de controlar o mundo, sua pressão arterial ficou altíssima. "Não me permitia falhar em nada. Queria dar conta do salão, da casa, dos filhos e do marido", lembra. Depois de sentir na pele a conseqüência de exagerar na dose no trabalho, ela aprendeu a delegar tarefas: "Meus filhos arrumam a própria cama, cuidam da louça e vão para a escola sozinhos. E reservei um tempo para mim. Duas vezes por semana me dedico a um trabalho de caridade, o que dá muito prazer".

Imprevistos e prioridades

Outro ponto-chave para estabelecer limites saudáveis e evitar o desgaste emocional, que muitas vezes passa despercebido, é a resistência a lidar com situações inesperadas. Um exemplo é quando se aproxima um feriado, você já planejou para onde viajar, a que horas pretende sair etc., e alguns imprevistos de trabalho acontecem. De um lado, você não quer pensar no problema porque está firme em seu objetivo e, do outro, sabe que tem de resolvê-lo e isso fica martelando em sua cabeça. "Essa cisão interna gera estresse porque sutilmente provoca uma perda de energia", explica Moacir. A saída é ser mais flexível. Encare o inesperado sem sentir raiva e, em vez de negar a situação, estabeleça prioridades. "Se o mais importante for o trabalho, programe-se para viajar mais tarde. Ou então descarte alguma coisa. Abrir mão de uma atividade também é uma forma de se preservar emocionalmente", diz Moacir. Ficar debatendo consigo mesmo faz mal para o humor e para o corpo, pois causa a falta de vitalidade geral. Com base nisso, uma série de sintomas de estresse pode ser desencadeada.

Seja quem você é

Segundo o homeopata paulista Sylvio Mollo, o estresse é um conjunto de sinais que o corpo usa para mostrar que a pessoa está num estado que não corresponde ao que ela realmente é. "O desacordo entre o que o paciente quer fazer e o que realiza provoca um desequilíbrio energético, e dessa desarmonia surge uma cascata de desconfortos, como fadiga e irritabilidade", diz. Com o administrador de empresas Rodolfo Baroncelli Júnior, 48 anos, foi assim. A angústia gerada pela sobrecarga de trabalho causava dores de cabeça e resfriados freqüentes: "Eu não me conformava com o corre-corre diário. Perguntava a mim mesmo o porquê de trabalhar tanto, viver em função da empresa. Engolia sapos sem falar nada. Jamais expressava meus sentimentos. Até que um dia resolvi mudar. Busquei ajuda na terapia, na acupuntura e na homeopatia. Aos poucos, os resfriados foram diminuindo, até desaparecer. Ao mesmo tempo, comecei a me sentir mais livre e menos exigente", conta.

Para alcançar o equilíbrio, em primeiro lugar é importante criar o hábito de examinar a própria vida. Em casos críticos, o melhor é se afastar da fonte de estresse: casamento, trânsito, barulho dos vizinhos. Tirar férias pode ajudar. Mas não adianta ir para o Sambódromo ou para a China se não estiver disposto a analisar o problema. É um processo que requer atenção e até um certo treino para se proteger das situações esgotantes, tomando atitudes mais flexíveis. O médico Ronaldo Perlato sugere que nesses casos, antes de tomar qualquer decisão, você se pergunte: 1. Qual a sua responsabilidade pelo que está acontecendo? 2. O que você ganha ao tomar atitudes que ultrapassem seus limites? 3. O que você perde com essa forma de agir? Na maioria das vezes, acredite, o resultado não vai compensar uma alteração desgastante.

Estar atento ao próprio corpo e às emoções é, sem dúvida, a melhor forma de prevenir o estresse. Lição que a bióloga Renata Hattori, 36 anos, leva na ponta do lápis. "Quando sinto que estou ficando muito cansada, sem tempo para fazer o que gosto, sei que algo está errado e tento relaxar. Não deixo o quadro evoluir. Vou caminhar, ouço música new age, desligo o noticiário e procuro situações em que recupere meu bom humor, capaz de quebrar qualquer rigidez", afirma.

Na rotina...

  • Obedeça aos limites de seu corpo. Quando estiver cansado, descanse, quando der fome, coma, e assim por diante.
  • É lei da física: você não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Por isso, não marque compromissos encavalados e considere a distância entre eles.
  • Outra lei inexorável: o dia só tem 24 horas, por isso estabeleça prioridades e não esqueça que você também precisa de lazer.
  • Faça uma coisa de cada vez.
  • Diminua suas expectativas em relação às pessoas e aos resultados de seus projetos.
  • Se você é perfeccionista, permita-se ser menos crítico e mais maleável com seus erros e com os dos outros.

    Descubra seus talentos

    Ter uma atividade criativa é uma medida antiestresse, dá leveza ao cotidiano e clareza na hora de planejar a vida. Pintura com aquarela, modelagem e tecelagem são bons exemplos. "Ao modelar o barro, racionalizamos menos e o sentimento flui melhor", enfatiza o médico Ronaldo Perlato, da Clínica Artemísia. Da mesma forma, a pintura com aquarela traz uma gostosa sensação de liberdade, já que a tinta não pode ser controlada conforme nosso comando. A água não obedece aos contornos do desenho, escapa e faz um caminho próprio no papel. Já a tecelagem, além de ser uma terapia ocupacional, pode ser associada à própria vida. "Fio a fio, essa atividade ensina que é você quem tece sua vida", diz Ronaldo.

    Teste: Você está passando de seus limites?

    As questões abaixo indicam seu nível de estresse. Se você tem alguns destes sintomas, está na hora mudar seu modo de agir e de organizar a rotina.

  • Nas últimas semanas, seu padrão de sono mudou? Está demorando mais para pegar no sono, dorme e acorda várias vezes? Tem insônia?
  • Você perdeu o apetite ou comeu compulsivamente (inclusive alimentos de que não gosta muito)?
  • Está mais intolerante e agressivo no trânsito?
  • Seu humor está tão fora de controle que nem você mesmo está se agüentando?
  • Tem dificuldade de se concentrar numa única tarefa? Não consegue tempo para ler e estudar?
  • Anda esquecendo coisas simples, como o telefone do seu melhor amigo?
  • Sente-se cansado e desanimado o dia todo, inclusive logo depois de acordar?
  • Seu cabelo está caindo mais do que o normal?
  • Percebeu alguma alteração de pele? Coceiras, por exemplo?
  • A libido anda em baixa? Você está preocupado com sua performance na cama ou está sem vontade de namorar?

  • Texto: Liliane Oraggio e Kátia Stringuetto
    Reportagem: Kátia Stringuetto
    Ilustrações: Meire de Oliveira



    Junho 2002

    VEJA MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO




  • ANUNCIE | MAPA DO SITE | DÚVIDAS | EXPEDIENTE | NAS BANCAS | FALE CONOSCO | NEWSLETTER | LOJA ABRIL

    Copyright © 2007 Editora Abril S.A. Todos os direitos reservados
    Dúvidas sobre senhas e acesso ao site, veja aqui.
    Para comunicar erros no site, por favor entre em contato.
    Sugestões de pautas ou dúvidas sobre reportagens, por favor envie um email