AUTO-CONHECIMENTO
De onde vem sua energia


A professora de ioga Ana Luíza Hastings, de São Paulo, une posturas e respiração para manter a vitalidade.

Oxigênio, comida, relacionamentos e até os antepassados e o Universo são as fontes de nossa vitalidade, segundo a milenar medicina chinesa. Aprenda a potencializar cada uma delas para manter seu equilíbrio físico e mental.

Atômica, cinética, elétrica, eletromagnética, mecânica, potencial, química, radiante, térmica ou de repouso. A lista é imensa. Seja qual for o nome, revela apenas uma pequena faceta desse algo perceptível, mas intangível, que não cabe na camisa-de-força das definições, mas que os ocidentais convencionaram chamar de energia, os chineses de ch'i, ou ki, e os hindus de prana. Ela está presente em tudo o que é vivo e faz o coração bater, o cérebro funcionar e as plantas e os animais se desenvolver. Na sabedoria da velha China, é descrita como "a força que levanta a tampa da panela que está cozinhando o arroz" - maneira poética de contar que, há mais de 5 mil anos, muito antes do surgimento da física, já se sabia que o mundo é permeado por uma energia que o sustenta vivo, em movimento, e influencia a vitalidade, a disposição e alegria de seus habitantes.

"Somos seres aeróbicos. Falar em energia é falar em oxigênio. Ele é o combustível que mantém o organismo funcionando bem", afirma o médico pneumologista Geraldo Lorenzi Filho, do Instituto do Coração de São Paulo. O oxigênio captado pela respiração é transportado até as células pela corrente sangüínea e produz as reações químicas necessárias para ativar todos os órgãos e sistemas do corpo. Mas há um porém: o oxigênio é também oxidante - provoca o envelhecimento das células - e não determina por que algumas pessoas têm mais disposição do que outras. "Sabemos que o oxigênio é fundamental, mas a vitalidade não está ligada à quantidade desse gás no corpo", aponta Lorenzi.

Estranha ao Ocidente, matéria-prima no Oriente. A energia é justamente a menina-dos-olhos da medicina oriental, que relaciona um grande número de fontes energéticas - o sol, o ar, a terra, os alimentos e até os antepassados -, de onde podemos extrair vigor e bem-estar. A medicina indiana detalha 72 mil canais, e a chinesa classifica ao redor de 100, pelos quais essa força circula e é distribuída para órgãos, vísceras, tecidos e células. O fluxo da energia nesse percurso - se é livre ou cheio de obstáculos - é que fará a diferença entre saúde e doença, equilíbrio e desequilíbrio, vitalidade ou fadiga. "Somos como uma TV sempre ligada à corrente elétrica. Se a energia oscilar muito, o aparelho não funcionará bem e tende a quebrar. No corpo, é a mesma coisa", compara Ysao Yamamura, chefe do setor de medicina chinesa da Universidade Federal de São Paulo, em São Paulo. Dispor ou não de uma boa dose de energia não é obra do acaso, mas o resultado de práticas que dependem exclusivamente de nós. São cuidados que vão desde a alimentação até o cultivo de boas emoções: "Estamos sempre captando energia. A questão é como a utilizamos. Não adianta levar uma vida de apego e desrespeito ao próximo e achar que meia dúzia de exercícios corrigem tudo. A conduta também determina a saúde e o bem-estar", ensina Marcos Rojo Rodrigues, professor de ioga da Universidade de São Paulo.

Conheça as cinco fontes de energia

  • 1. Universo -
    Tudo começou com o Big Bang, a grande explosão que deu origem ao Universo. No princípio, só havia energia, até que ela começou a se densificar em matéria, formando galáxias, estrelas, planetas, vegetais, minerais e seres vivos. Para sustentar esse conjunto em funcionamento equilibrado, os ocidentais creditam ao sol a manutenção da vida. Já os chineses entendem que isso depende do sol, da Terra e das forças opostas que se complementam: yang e yin, masculino e feminino, positivo e negativo. Os antigos textos esotéricos mencionam ainda um sol espiritual, centro primordial de onde emana toda a energia, que chega aos homens penetrando pelo alto da cabeça, onde está um dos chacras - os centros responsáveis pela troca de energia com o mundo exterior, localizados ao longo da coluna vertebral. Da cabeça, a energia vai para o chacra do coração, de onde é distribuída para órgãos e células. "Não podemos alterar as energias macroscópicas, mas somos capazes de transformar o que fazemos com ela em nosso interior. Meditação, orações, pensamentos e sentimentos harmoniosos e uma dieta balanceada são formas de purificar os chacras e aumentar a disposição", ensina Urbana Rutherford, teóloga de São Paulo e membro da Summit Lighthouse do Brasil.


  • 2. Herança familiar
    - Para a ciência moderna, tudo está no DNA. É ali que as múltiplas combinações das letrinhas do código genético escrevem a história de nossas doenças e nossa saúde. Os orientais têm uma visão semelhante, mas agregam o componente energia à herança que recebemos dos antepassados. "Carregamos a energia de todos os ancestrais. Ela é transmitida de uma geração a outra", explica Ysao Yamamura. Na China, é comum as famílias serem classificadas como de "sangue bom" ou "sangue ruim", expressões que indicam a qualidade do ch'i, ou energia vital, que circula entre seus membros. E não são apenas as doenças físicas que contam. O mau ch'i de uma família que vivenciou tragédias como guerra ou terremoto também passa a integrar a herança daquele grupo, provocando desequilíbrios.


  • 3. Respiração
    - O ar é uma fonte de energia tão primordial que é considerado alimento pela medicina oriental. Não é figura de linguagem. Na prática, é isso que a respiração faz, e dessa boa "alimentação respiratória" depende o funcionamento do organismo. "Os pulmões atuam como uma bomba que joga o oxigênio para dentro. Um sistema de transporte, o sangue, o leva até as extremidades para alimentar células e remover o gás carbônico. Outra bomba é o coração, que impulsiona o sangue", diz o pneumologista Geraldo Lorenzi Filho, de São Paulo. Os adeptos da ioga vão além e usam a respiração como ferramenta para equilibrar emoções e reduzir tensões musculares: "Respiração e emoção andam juntas. Pessoas ansiosas, por exemplo, não conseguem soltar plenamente o ar", afirma o professor de ioga Marcos Rojo Rodrigues, de São Paulo. A inspiração ativa o sistema nervoso simpático e excita. Já a expiração ativa o sistema parassimpático e relaxa, causando a sensação de bem-estar. Estudos realizados pela escola de ioga Kaivalyadhama, na Índia, verificaram que os pranayamas, as técnicas respiratórias, não provocam maior absorção de oxigênio, mas propiciam um maior aproveitamento do gás: "Melhora também a eliminação de toxinas", explica Rodrigues. Na ótica dos hindus, outra tarefa importante da respiração é transportar e distribuir a energia para o corpo. Para isso, percorre um labirinto de 72 mil canais e pode forçar a passagem quando estiverem obstruídos. Grande parte de nossa vitalidade depende do bom fluxo da energia nesse percurso corporal. Já a sabedoria chinesa ensina que a respiração que realmente abastece o organismo de energia e nutrientes é a que sai do "céu", na parte superior do tórax, e atinge a "terra", onde estão os rins, também associados às raízes de uma planta. "No Ocidente, as doenças estão aumentando porque o padrão de beleza exige peito para fora e barriga para dentro, sinônimos de respiração curta", revela o médico Ysao Yamamura.


  • Alimentação
    - Para a medicina oriental, quando comemos, absorvemos indiretamente a energia do sol e da terra. Por isso, além de nutrientes, seus cardápios levam em conta as características energéticas dos alimentos, determinadas pela cor, pelo sabor e pelo local de plantio. Depois de enlatados e processados, eles têm seu valor nutricional reduzido. É preciso ainda favorecer o metabolismo - a digestão e a excreção -, evitando que a energia dos alimentos se acumule no organismo, o que prejudica a saúde. Para fazê-las circular, o doutor Ysao Yamamura indica exercícios físicos - especialmente o tai chi chuan -, a meditação, o relaxamento, a massagem, a acupuntura, os remédios e os chás à base de ervas. Aos olhos da medicina convencional, a comida é uma das principais fontes de energia. Graças ao metabolismo, vitaminas, minerais e aminoácidos são transformados em vitalidade: "Carboidratos (massas e doces) e gorduras são os principais energéticos. Mas a dieta saudável inclui proteínas, vitaminas e minerais, presentes em frutas, verduras, cereais e carnes", afirma a nutricionista Neide Maru Tuschya, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo.


  • Relacionamentos
    - Por toque, olhar, pensamentos, emoções ou aura - o campo de força que envolve todo ser vivo -, o que recebemos e enviamos, no contato com outras pessoas, é pura energia. "Todo organismo vivo possui um fluxo de energia que leva ao crescimento. Quando há equilíbrio, a pessoa carrega e descarrega continuamente essa energia no trabalho, no sexo, nas relações ou na expressão da criatividade", diz a psicoterapeuta bioenergética Cecília Valentim, de São Paulo. Essa é a condição ideal. No dia-a-dia, nem sempre a história se desenrola assim. Traumas ou situações difíceis atuam como obstáculos à circulação energética dos relacionamentos. Tensões musculares ou doenças como a depressão sinalizam a contenção ou a redução do fluxo. "O que determina se uma pessoa está ou não saudável é a quantidade de energia que coloca na vida, nas realizações, nos relacionamentos, no equilíbrio entre trabalho e prazer e, sobretudo, na conexão entre o que sente e o que faz", ensina Valentim. Estresse e ansiedade são vilões que afetam as trocas interpessoais. "Exercícios respiratórios e relaxamento ajudam. Pois partem da abordagem corporal para modificar pensamentos e crenças negativas", revela o médico José Roberto Leite, professor adjunto do departamento de psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo.

    Texto: Fanny Zigaband
    Reportagem Fotográfica: Ana Paula Wenzel
    Fotos: Antônio Rodrigues



Agosto 2002

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