
Desatenções que se repetem
com freqüência, como errar um caminho conhecido,
perceber que o passaporte está vencido apenas na
véspera da viagem e esquecer a chave de casa,
podem indicar conflitos mais profundos,
escondidos na mente ou no coração. São
sinais que querem dizer: suas ações não
estão coerentes com sua vontade. Fique esperto! |
AUTO
CONHECIMENTO Ato falho: engano
revelador
Responda rápido: você já
adiantou o despertador para dormir mais um pouquinho? Errou
o caminho que faz diariamente para o trabalho? Em épocas
de dificuldade financeira, esqueceu de pagar contas e, dias
depois, pagou-as com multa? Chegou atrasado em um importantíssimo
encontro profissional? Colocou roupa do avesso, sapatos ou meias
de cores diferentes em cada pé? Ficou resfriado na véspera
da entrevista para um novo emprego? Sempre perde a chave de
casa?
A grande maioria das pessoas responde sim a pelo menos uma dessas
perguntas. Repetidas com maior ou menor freqüência,
atitudes desse tipo, que parecem coincidência ou distração,
podem intrigar e até conduzir a questionamentos como:
o que está acontecendo comigo? Onde estou com a cabeça?
Quando essas falhas acontecem várias vezes da mesma forma,
indicam um autoboicote. Sigmund Freud (1856-1939), psiquiatra
radicado na Áustria que fundou a psicanálise há
100 anos, percebeu a importância dessas ações
e as chamou de atos falhos, ou seja, atitudes inconscientes
que acontecem em nosso dia-a-dia. “O ato falho denuncia
desejos que estão em nossa mente, porém ainda
não passaram para o plano consciente”, diz Maria
Cecília Faria, psicanalista e professora de psicologia
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo.
De olho na repetição
Ela explica, por exemplo, que a pessoa que
passa por problemas de dinheiro e só consegue pagar suas
contas com multa, devido ao esquecimento, quer mostrar a si
mesma que está em falência. “Ela acaba arrumando
uma forma de se castigar”, completa Maria Cecília.
Por serem histórias do cotidiano, e muitas vezes engraçadas,
costuma-se apenas dizer “que azar!” ou simplesmente
dar boas gargalhadas da situação. “Mas é
preciso estar atento, pois o ato falho é uma linguagem,
uma comunicação arcaica”, alerta Maria Cecília.
“Não existe acaso se a situação se
repetir algumas vezes. Deve-se perguntar: o que isso significa
em minha vida? Por que preciso de punição?”,
destaca.
Acesso ao inconsciente
Casos curiosos não faltam. Renata
Dami, psicóloga, 41 anos, conta o que aconteceu várias
vezes: quando dirigia o carro rumo à faculdade onde estudava,
de repente notava que tinha pego um caminho totalmente errado.
“Era como se minha cabeça voasse. Na verdade, eu
não queria estar ali, o curso não supria as expectativas,
mas tentava cumprir minha obrigação”, lembra.
A dentista Nicole Ferreira, 35 anos, todas as manhãs,
chova ou faça sol, pula da cama e vai ao clube nadar.
“No dia em que ia participar de minha primeira competição,
levantei cedo, arrumei minha sacola (com todos os cremes e xampus).
Já no vestiário, percebi que havia esquecido o
maiô”, diz. “Isso deixou claro que meu prazer
está apenas em nadar, não em competir”,
conclui. A psicanalista Maria Cecília lembra de uma paciente
que estava tinindo para o vestibular de medicina. “Havia
se preparado o ano todo, mas, na hora de passar a redação
a limpo, ela escreveu na folha errada e foi reprovada”,
conta. “Mais tarde, descobriu que queria fazer jornalismo.”
Questão de adaptação
Sob outro ponto de vista, quem repete esses
atos falhos não está apenas se boicotando. “É
também uma forma de se adaptar a uma situação
nova, mas isso pode resultar em atitudes que provocam surpresas
indesejáveis”, explica Regina Wielenska, terapeuta
comportamental, vice-coordenadora de especialização
em terapia comportamental do Instituto de Psicologia da Universidade
de São Paulo. A produtora Maria Alice Penna, 30 anos,
coleciona diversos “acasos curiosos” que lhe aconteceram
em situações de viagem. “Já esqueci
o passaporte e tive de sair correndo para buscá-lo”,
lembra. “E há muito mais: cheguei a jogar fora
a passagem de volta pensando ser um papel qualquer. Outra vez
eu simplesmente não ouvi o chamado para o vôo em
plena sala de embarque...” Para Regina, quem esquece o
passaporte quando vai viajar pode estar com a cabeça
ocupada com outra coisa mais importante. “Por isso, fica
difícil se organizar para que tudo saia direito”,
diz a terapeuta. “É preciso se planejar melhor
para viver uma situação diferente, ou seja, criar
hábitos para prestar atenção naquilo que
é importante no momento.”
Com humor
A escritora inglesa Helen Fielding teve
sucesso com seu livro O Diário de Bridget Jones (ed.
Record) justamente por brincar e dar um tom espirituoso às
neuroses e auto-sabotagens de sua heroína: uma mulher
de 30 anos que, enquanto conta calorias, procura um namorado
legal e tenta parar de beber e fumar. Quem não se identifica
com a listinha de resoluções de Bridget para melhorar
sua qualidade de vida? Ali está, por exemplo, “não
vou me interessar por nenhum dos seguintes tipos: alcoólatra,
workaholic, homem com horror a compromissos, os que têm
mulheres...” ou “vou sair da cama assim que acordar,
ser mais segura, ser mais firme...” Será que ela
conseguirá atingir seus objetivos ou procurará
subterfúgios para se sentir melhor? Irá se auto-enganar,
como analisou Eduardo Giannetti, economista e professor das
Faculdades Ibmec de São Paulo, e Ph.D. pela Universidade
de Cambridge, no livro Auto-Engano (ed. Companhia das Letras).
Para ele, sem as mentiras que contamos a nós mesmos,
a vida seria muito dura e sem encanto. “Até que
ponto pode chegar um homem na dissimulação interna
e no auto-engano necessários para apaziguar a mente e
garantir uma convivência harmoniosa consigo mesmo?”,
escreve Giannetti. O economista explica que o auto-engano só
será completo e perfeito quando for um ato não
planejado. Por isso, basta ficar atento aos resfriados, esquecimentos,
atrasos, namorados problemáticos...
Sinais de alerta
Evitar os atos falhos, como denominou Freud,
é praticamente impossível, pois são inconscientes
e um precioso canal de comunicação da mente, que
liga o plano consciente a nossa essência. “Eles
devem ser levados em consideração para que se
mude de rumo”, observa a psicanalista Maria Cecília
Faria. Ela diz que é preciso prestar atenção
se as seguintes atitudes se repetirem duas, três vezes:
• Chegar atrasado;
• Ficar resfriado;
• Esquecer coisas ou
compromissos importantes;
• Expor-se a situação de perigo.
TEXTO: FLÁVIA BENVENGA ILUSTRAÇÕES: ADRIANA
CORNAVACA WOLFF
Fevereiro 2003
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