Quando o corpo adoece, é sinal de que a alma também está machucada. Dar um tempo e respeitar seu relógio interno é um dos muitos aprendizados do período de convalescença. Lidar bem com as dificuldades dessa quebra abrupta da rotina faz parte do processo de cura, feito também de aceitação e paciência.
AUTO CONHECIMENTO

Parada obrigatória

Os dias de descanso quando se está acamado podem ser uma ótima chance para promover mudanças internas. E não tem jeito: os momentos em que a saúde fica frágil fazem parte da vida. A doença – uma gripe forte, uma crise de cólica ou enxaqueca – é um sinal que o corpo dá para avisar que a casa interna está precisando de arrumação. Para quem está acostumado a um ritmo alucinante, se ver obrigado a ficar numa cama pode ser inimaginável. É comum que a mente demore um pouco para se acalmar. Sentimentos como medo, tristeza, impotência, preocupação com o futuro e insatisfação são comuns no início, mas, para fazer dessa dificuldade uma experiência positiva, é necessário aceitar a doença. “A convalescença faz parte do processo de cura”, acredita o médico Ivan Stratievsky, cirurgião geral da linha antroposófica, de São Paulo.

APROVEITE O REPOUSO
No passado, na época das civilizações antigas, como a egípcia ou a grega, os doentes iam para lugares amplos, os templos de cura. Lá, ficavam aos cuidados dos sacerdotes-médicos, que indicavam o repouso como tratamento: dias para refletir e perceber o que, dentro de seu modo de vida no trabalho, na família, no amor, levou à enfermidade. “Esse tempo é fundamental para que o doente ouça sua consciência mais profunda e entenda o papel dessa parada obrigatória em sua vida”, justifica Ivan. Quem fica doente quer colo e gosta de ser paparicado. “Isso é saudável porque é uma maneira de aprender a aceitar ajuda”, esclarece a neuropsicóloga Anita Taub, coordenadora do departamento de saúde mental do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Um prato de sopa, um suco ou um chá oferecidos com carinho têm efeito poderoso e devem ser aceitos de bom grado, sem culpa. O mesmo vale quando é necessário ter ajuda para manter a casa em ordem ou as contas pagas. Aceitar a doença e a ajuda é a chave desse processo. Então, já que a vida deu essa chance, o melhor a fazer é rever os últimos passos dados e planejar os próximos – ou talvez redirecionar o caminho, assim, sem pressa. A seguir histórias de quem tirou o melhor desse tempo de recolhimento.


Como ajudar e ser ajudado
Pessoas em convalescença precisam estabelecer uma nova rotina. Horários de remédio, banho, passeio e visitas passam a reger o dia-a-dia. Nessas horas, a presença da família e de amigos pode ser muito bem-vinda, desde que seja criado um ambiente propício para essa relação tão delicada: manter o lugar mais silencioso e tranqüilo possível, não falar muito e estar realmente presente, mesmo que por um curto período, são atitudes que ajudam a proporcionar conforto emocional nesse momento. Aos mais íntimos, cabe manter a regularidade da presença e, principalmente, se apropriar das tarefas daquele que está em recuperação. “É mais fácil sarar quando você sabe que há alguém cuidando de seus filhos e da casa enquanto se descansa”, avalia a neuropsicóloga Anita Taub. Para quem está de molho, o tempo pode também ser preenchido por livros, vídeos e boas conversas.


Amigos e humor
O transplante de fígado, feito há cinco anos, é lembrado como um renascer para a estudante Veridiana Lopes, 20 anos, de São Paulo. Da peregrinação por hospitais e do tempo de recuperação, ela tirou lições que mudaram o rumo de sua vida: faz faculdade de enfermagem para ficar próxima dos que precisam, visita voluntariamente crianças internadas e está escrevendo um livro para ajudar transplantados nas dificuldades da convalescença. “Sabia que aquela cirurgia significava a vida, por isso tentei me manter bem”, conta. Prova disso está no álbum, guardado com carinho e iniciado no dia da cirurgia: são fotos em que está sempre sorrindo e muitas cartas de solidariedade. De volta a casa, foi preciso muito equilíbrio interno para vencer a distância física obrigatória. Com a baixa resistência imunológica, Veridiana não podia receber abraços ou qualquer toque. A rotina era mantida com a ajuda de uma enfermeira e pela visita semanal de três amigas. Foi preciso coragem e persistência para a primeira ida ao supermercado. “Usava máscara e as pessoas me hostilizavam e olhavam como se eu fosse diferente”, diz. A solução? Desenhar um sorriso na máscara. Foi assim que Veridiana superou mais de três meses de recuperação.


A aceitação cura
A terapeuta ocupacional paulista Mirella Zuccon, 32 anos, acredita que sua recuperação, ainda em andamento, lhe ensina muito. “Hoje me alimento melhor, sou mais condescendente comigo mesma, menos crítica, mais flexível e, principalmente, respeito meus limites”, admite. Para conseguir vencer a fibromialgia – uma síndrome crônica, de difícil diagnóstico, que dá muita dor no corpo e cansaço –, Mirella precisou passar pela aceitação da doença. “De repente, de terapeuta virei a paciente. Me sentia muito sozinha, estava 10 kg mais gorda, por causa dos remédios, e com a auto-estima lá embaixo”, compara. À beira da depressão, Mirella encontrou apoio na mãe, na médica e nas fisioterapeutas, a quem chama de anjos da guarda. Descobriu que não podia ter pressa, já que sua recuperação é lenta, e parou de lutar consigo mesma. “O tempo do mundo não espera o tempo de quem tem fibromialgia”, define. Quando ainda sente fadiga, não fica mais triste. Deita e espera a melhora do corpo e da alma. E, com a vida profissional virada do avesso, também reprogramou seu caminho. Aceitou a proposta do namorado e divide com ele a administração de uma pousada no litoral norte de São Paulo.


Muita paciência
Acostumada a trabalhar 13 horas por dia, Carla Gomes, 30 anos, não tinha tempo nem para ela nem para os filhos, de 8 e 5 anos. Decidiu colocar uma prótese nos seios e, na cirurgia, o médico achou um nódulo. Quando voltou para casa, sem poder se mexer e com a recomendação de que precisava repousar, ela se sentia muito incomodada. “Não parava de pensar em trabalho”, conta. Em meio a um turbilhão de sentimentos negativos, seu filho de 8 anos se aproximou da cama para conversar. “Naquele momento, percebi que não encarava os olhos dele com amor há muito tempo e isso me assustou”, recorda. Nos dias seguintes, Carla fez outra descoberta: sua casa não tinha espelhos. “Me dei conta do quanto não me enxergava. Olhei minha vida como um filme e percebi o quanto me tolhia. Resolvi abrir mão das minhas prisões”, revela. Mudou de profissão, de assessora de imprensa para astróloga, o que realmente lhe traz prazer. Com os filhos, também tem um relacionamento mais próximo. “Aproveitamos os dias como nunca fizemos antes. A doença trouxe de volta minha essência”, analisa.


Música todo dia
A família e os amigos da banda Paralamas do Sucesso tiveram papel decisivo para a recuperação do cantor Herbert Viana, 41 anos, que sofreu uma grave lesão cerebral depois de um acidente de avião, há dois anos. Os companheiros de palco Bi Ribeiro, 40, e João Barone, 40, aprenderam com a doença tanto quanto o amigo. Quando Herbert estava no hospital, prepararam CDs com suas músicas prediletas para que os dias de todos fossem suportados com suavidade. Sentavam a seu lado para conversar ou apenas segurar sua mão. “A volta à realidade foi dolorosa, e o apoio da família, muito importante”, lembra Barone. “Nosso contato era diário. Se não íamos a casa dele, ligávamos”, conta Barone. Com a força dos companheiros, Herbert não se entregou à depressão e voltou à ativa. “A cada encontro no estúdio, a gente se emocionava como se fosse a primeira música, o primeiro ensaio. Hoje damos mais valor às coisas rotineiras”, declara Barone. Herbert perdeu os movimentos das pernas e tem problemas de memória. Mas continua a lutar. Lúcia Braga, neuropsicóloga, que acompanha o músico, gosta de contar: “Herbert sempre diz que não nasceu de óculos nem de cadeira de rodas”.



TEXTO: ANA HOLANDA ILUSTRAÇÕES: REGINA STELLA

Março 2003

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