Colo é sopro que renova a alegria e cura do chororô sem motivo ao corte no dedo, da aflição passageira à dor funda do luto. Descubra por que esse contato íntimo nutre e expande a capacidade de amar e de ser amado.
BEM-ESTAR

Quero colo

Não é fácil admitir, mas, convenhamos, adultos também precisam – e muito – de colo. Dizem que as mães são todas iguais e sempre consideram os filhos como crianças. Por outro lado, há algo nos filhos que não muda: mesmo muito longe da infância, aos 20, 40, 60 anos, estamos sempre querendo provar do calor de estar nos braços de alguém que simplesmente nos aceite. Se junto com essa maravilha tiver um cafuné, então é o céu...

A razão dessa busca é tão antiga quanto nosso código genético. Nesse gesto recuperamos o contato com o que há de mais humano – afinal, antes de nascer, todos ficamos meses na posição fetal, nossa primeira referência de proteção. “A qualidade do colo que a criança recebe, especialmente até o primeiro ano de vida, vai determinar toda sua estrutura e seu desenvolvimento. Nosso contorno físico e emocional é criado desse gesto, que molda nossa capacidade de dar e receber proteção, intimidade, conforto”, afirma André Trindade, psicólogo, psicomotricista e especialista em reeducação postural, de São Paulo.

Mesmo que muitos adultos neguem, estamos sempre reinventando maneiras de voltar àquele quentinho primordial. As crianças crescidas fazem isso brincando de tenda. Na adolescência, andar em grupo é outro jeito de experimentar novas possibilidades de acolhimento. Mais tarde, quando o amor chega para valer, com mais volúpia, descobrimos o quanto o colo é mesmo coisa de pele. Não requer explicação, apenas proximidade e encaixe.

Sintonia fina
Seja qual for a situação em que ocorra, arredondar os braços e rechear esse espaço com outro ser humano é das mais prazerosas emoções da intimidade. A trilha sonora perfeita para esse momento? O tum tum do coração do outro, próximo, audível, pulso ritmado que reafirma que uma vida está sintonizada com a outra. Assim, a respiração sossega, o coração se abre para que caibam ali os melhores sentimentos. Colo é sopro que renova a alegria e cura do chororô sem motivo ao corte no dedo, da aflição passageira à dor funda do luto.

Colo nutre. Que o digam as milhares de mães que, em vez de encubadeiras, garantiram o desenvolvimento de seus filhos prematuros apenas colocando-os contra o peito, pele com pele: são as chamadas mães canguru. Várias maternidades particulares e públicas do Brasil adotam esse método, descoberto por médicos colombianos e que se provou eficiente pela simplicidade, por estreitar o vínculo entre a mãe e o bebê e pelo baixo custo – já que calor humano não tem preço e nem existe recurso tecnológico capaz de substituí-lo.

Dar colo para filhos, afilhados, sobrinhos é outra das artes deliciosas do aconchego. Mas repare que, às vezes, embora seja o adulto sustentando a criança, é ela que está dando colo, pois é impossível ficar imune ao sorriso infantil e ao calor da inocência. Não há estresse, pensamento negativo, ansiedade que resistam. E olhe que elas nem cobram por essa mágica!

Expandir e recolher
Mas quem não tem anjos, mãe, pai, namorado, amigo de plantão pode ficar tranqüilo: esse efeito pode ser experimentado de maneiras simbólicas e não menos aconchegantes. “Fechar os olhos e imaginar uma linda paisagem, meditar ou fazer algo de que gosta muito são formas de dar colo válidas pela vida toda. Por mais louco e agitado que seja seu ritmo, é importante alternar os momentos de estar no mundo – aberto para as experiências – com momentos de recolhimento (que simbolizam o conforto do colo), em que digerimos emoções e descansamos para voltar ao que é externo a nós. Quem fica apenas para fora tende a encontrar esse recolhimento em duros processos de depressão e doença”, acredita o psicólogo André Trindade.

Então, vale o conselho: quando você estiver muito agitado, insatisfeito, triste, solitário, antes de sair falando demais, comprando demais, comendo demais e cometendo outros excessos, que vão causar arrependimento e mal-estar, pergunte se o que você precisa não é mesmo de colo. Se a resposta for sim... “Deite-se, espreguice esticando todo o corpo, depois sente-se sobre os calcanhares e enrole o tronco para frente, apoiando o rosto no chão e mantendo os braços para trás. Expandir-se e, na seqüência, enrolar-se são movimentos de reequilíbrio”, diz André.

Você pode também afundar o corpo em uma poltrona macia, entregar-se a uma boa massagem, olhar alguém nos olhos, fazer algo de bom, dizer palavras de carinho. Isso tudo nos envia direto a nossa parte mais calorosa. É satisfação na certa, e de graça.

Quem não tem crianças, mãe, pai, amigo de plantão pode provar o conforto de um bom colo quando medita, olha alguém nos olhos, faz algo de bom ou contempla o céu

Aconchego na cidade
Esse mesmo aconchego do colo entre duas pessoas pode ser também experimentado em alguns lugares da cidade ou mesmo em boas relações de vizinhança. Ir a praças e parques bem cuidados onde você se sinta seguro, a mirantes, a museus, ao cinema pode fazer com que você recicle seus pensamentos, permita às horas passar mais devagar e refaça suas energias.

“Mesmo em cidades grandes e caóticas como São Paulo é possível restabelecer os laços comunitários e de vizinhança, que quebram o anonimato e trazem conforto”, assinala Roberto Loeb, arquiteto de São Paulo, que sempre considera as relações humanas e a reintegração social como pontos de partida de seus projetos.

Ele lembra que existem inúmeras iniciativas espontâneas de recuperação de praças e áreas abandonadas realizadas pela população que resultaram em espaços mais bonitos e estimularam uma espécie de gentileza urbana, que nasce do cuidado que as pessoas têm consigo mesmas e com os outros. “Assim a cidade também fica mais aconchegante”, conclui o arquiteto.

Máquina do abraço

Nem todas as sensações transmitidas no colo são agradáveis. Intensidade, pressão, temperatura, intenção podem transformar esse contato em uma experiência indesejável e até traumática. Isso foi observado pelo neurologista inglês Oliver Sacks no livro Um Antropólogo em Marte (ed. Companhia das Letras). Ele conta o caso da autista americana Temple Grandin, que é uma engenheira brilhante. Ela construiu uma “máquina de espremer”. Tratava-se de uma calha em formato de V forrada com enchimento macio. Ela deitava-se ali e, com um controle remoto, produzia a sensação de colo. “Essa máquina proporciona uma pressão firme, porém confortável sobre o corpo, dos ombros aos joelhos, regulando a pressão”, escreve ele. O médico perguntou por que alguém se submeteria a tal contato e ela contou que quando era pequena desejava muito ser abraçada, mas se sentia esmagada, especialmente por sua tia predileta e gorda.

Sacks escreve: “Enquanto me contava isso, Temple ajoelhou-se, deitou de bruços no meio do V e girou os controles. Os dois lados convergiram, apertando-a com firmeza. (...) Foi a coisa mais estranha que já vi e contudo, com toda a esquisitice, era tocante e simples. Certamente não havia dúvida sobre seu efeito. A voz de Temple, em geral alta e dura, tornou-se suave e amena. Enquanto ficava na máquina, ela diz, seus pensamentos dirigiam-se com freqüência para sua mãe, sua tia, seus professores. Sente o amor deles por ela, e o dela por eles. Para ela, a máquina abre a porta para um mundo emocional que de outro modo continuaria fechado e lhe permite, praticamente a ensina, entrar em comunhão com os outros”. Esses são os efeitos experimentados por todos nós depois de um bom colo.

Um Antropólogo em Marte
Oliver Sacks

Tum tum, bate coração
O filme francês O Fabuloso Destino de Amelie Poulin, dirigido por Jean Pierre Jeunet, mostra de maneira engraçada e inusitada o quanto o calor humano faz falta. A garotinha Amelie era filha de um médico muito rígido, que costumava tocá-la apenas em consultas, quando aproximava o estetoscópio do peito da criança. Então, ouvia o coraçãozinho dela disparado, explodindo de emoção. Ele, com todo aparato científico, não teve dúvida e diagnosticou: a menina tinha uma séria doença cardíaca! Adulta, Amelie reconta a história de sua infância e confessa que o coração disparava era mesmo de ansiedade por aquela mínima aproximação com o pai. Esse grande engano do filme serve para refletir: será que muitas de nossas dores físicas não podem ser amenizadas com a proximidade e o carinho? Bálsamos que costumam não ter contra-indicações.

" O Fabuloso destino de Amelie Poulin"
Pierre Jeunet

Texto: Liliane Oraggio

MAIO 2004

VEJA MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO



ANUNCIE | MAPA DO SITE | DÚVIDAS | EXPEDIENTE | NAS BANCAS | FALE CONOSCO | NEWSLETTER | LOJA ABRIL

Copyright © 2007 Editora Abril S.A. Todos os direitos reservados
Dúvidas sobre senhas e acesso ao site, veja aqui.
Para comunicar erros no site, por favor entre em contato.
Sugestões de pautas ou dúvidas sobre reportagens, por favor envie um email