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ESPIRITUALIDADE
Os bons frutos do sofrimento
Por que é tão difícil
aceitar que o sofrimento faz parte da vida, como comer e dormir?
Deve-se refutar a dor ou, ao contrário, compreendê-la?
Essas provocações inspiraram a filósofa
francesa Chantal Thomas a escrever um livro em que várias
formas de sofrer, na vida e na literatura, estão em foco.
Nesta entrevista exclusiva a Bons Fluidos, ela conta o que descobriu
sobre esse sentimento tão presente e tão temido.
Em uma sociedade que, cada vez mais, prega a ditadura da felicidade
de todas as formas, é preciso aceitar o sofrimento e
usá-lo na evolução individual e –
por que não? – para ser feliz.
Essa e outras questões instigantes foram respondidas
no livro Souffrir (Sofrer), da filósofa francesa Chantal
Thomas, 58 anos, recentemente lançado na França
pela editora Payot. “Abandono”, “Amor, “Ausência”,
“Chorar”, “Espera”, “Esquecer”,
“Inferno”, “Separação”,
“Trabalho” são alguns dos títulos
dos 27 capítulos da obra.
O trabalho mescla reflexões pessoais com exemplos da
literatura mundial em torno do infinitivo “sofrer”,
passando por uma constelação de textos de escritores
e pensadores conhecidos, como o russo Fiodor Dostoiévski
(1821-1881), o francês Marquês de Sade (1740-1814),
o checo Franz Kafka (1883-1924), o alemão Friedrich Nietzsche
(1844-1900) e muitos outros.
Em uma retrospectiva histórica, ela constata que no século
18 (o do pensamento iluminista), o Paraíso deixou o Céu
para se estabelecer na Terra. O “vale de lágrimas”,
antes exaltado pela religião, perdeu a primazia e o sofrimento
tornou-se sem sentido e malvisto. “Porém negar
o sofrimento é negar a si mesmo, é uma luta perdida
por antecipação, na qual enfraquecemos nossas
emoções, nosso imaginário e nossa sensualidade”,
nota Chantal Thomas. É preciso enfrentar o sofrimento
como a um leal adversário, defende a filósofa.
No ensolarado terraço de seu apartamento parisiense,
Chantal Thomas conversou com Bons Fluidos e explicou por que
“sofrer é viver”.
Bons Fluidos —
Por que a idéia de escrever um livro sobre o sofrer?
Chantal Thomas – Uma das razões,
a mais superficial delas, está relacionada ao final de
meu recente livro sobre os últimos dias de Maria Antonieta
(rainha que foi destituída e decapitada durante a Revolução
Francesa, no século 18), quando ela está só,
abandonada a sua dor. Ele se chama O Adeus à Rainha (ed.
A Girafa). Aprofundando a pesquisa, me dei conta de que minha
maior dificuldade é reconhecer o sofrimento em mim mesma
e também de que, em nossa sociedade, são os sinais
positivos que são valorizados. O que está relacionado
ao fracasso, à fraqueza e mesmo à dúvida
não tem valor. Percebi que minha falta de energia em
tentar compreender o sofrer fazia parte de um tipo de complô
de silêncio a meu redor. Então, o livro surgiu
da cena do romance sobre Maria Antonieta, que não explorei,
e um aspecto de minha vida e minha personalidade que sempre
tentei camuflar. Mas não queria que fosse um livro pesado,
sombrio, e ele acabou sendo escrito com base em certos momentos
pessoais vividos, mas também em livros, pois acredito
que os livros podem nos salvar.
BF — A senhora questiona: deve-se refutar
a dor com todos os meios ou aceitá-la, dar um lugar a
ela em nossa história?
CT — Cresci em uma educação
católica, e o modelo do sofrimento de Cristo era ensinado
para que assim pudéssemos dar sentido a nosso próprio
sofrimento. Fora da religião, nos desligamos dessa significação
da dor e acabamos com a necessidade de inventar outra coisa,
ou então caímos no absurdo. É melhor sofrer
com sua própria personalidade, tentando se reconhecer
nesse acontecimento, em vez de colocá-la de lado, como
algo monstruoso, sem nenhum sentido.
BF — Hoje, sofrer não é
bem-visto, se tornou algo indecente e quase invisível,
como a senhora diz?
CT — Na forma como as pessoas são
representadas na publicidade, só se pode ser jovem, bonito,
um casal, estar ao sol, à beira-mar... Por exemplo, se
alguém é só ou não muito bonito,
não poderá se reconhecer em nenhuma dessas maneiras
de ser feliz propostas. E talvez seja esse cidadão comum
que esteja vivendo algo importante, enquanto essas imagens perfeitas,
mas insípidas, não acrescentam nada. Para escrever
o livro, reli Dostoiévski. Quando ele passa três
anos na prisão, por exemplo, decide que esse período
não seria apenas um parênteses em sua vida, mas
que iria vivê-lo inteiramente. De fato, ele se interessa
pelas pessoas a seu redor, reflete sobre o destino do prisioneiro
de uma forma mais ampla e faz dessa experiência a origem
de sua vida futura. Uma experiência que deveria abatê-lo,
na verdade, o fortalece.
BF – Perceber nosso sofrimento pode ajudar
a ser feliz?
CT — Se escutarmos nosso sofrimento,
ele poderá nos parecer menos absurdo. Há um encadeamento
dos acontecimentos que levam à dor. Compreender isso
pode ajudar. E podemos encontrar algo que nos apaixone e que
envolva também a alegria. Podemos descobrir que os dois
sentimentos não são tão distantes, opostos.
Nas imagens simplistas da felicidade, o fracasso é totalmente
excluído. E depois, quando ele acontece, as pessoas ficam
profundamente infelizes, perdidas, sem entender.
BF – Há sofrimentos reais e imaginários
que alimentamos sem realmente sofrê-los?
CT — Penso que os sofrimentos imaginários
ocupam bastante os espíritos. Os verdadeiros sofrimentos,
como a solidão, o sentimento de incompreensão
na família, nem sempre são assumidos, e continua-se
a viver como se tudo estivesse bem. Com freqüência,
as pessoas se queixam de sofrimentos imaginários e são
habitadas por verdadeiras aflições. Meu livro
se desenvolve nesse sentido e, por isso, termina com o terrível
caso do escritor suíço Fritz Zorn (1944-1976),
que durante toda sua vida disse que tudo estava bem, já
que fora educado para ter essa atitude, e descobriu que iria
morrer de câncer. No momento em que ele soube da doença,
compreendeu o que é estar vivo. Foi uma tomada de consciência
ao mesmo tempo terrível e esplendorosa, pois ele teve
a coragem de expressá-la. Tomar consciência da
importância do caráter precioso de nós mesmos
somente quando somos ameaçados é algo insustentável,
mas, entretanto, banal. Se nos convencemos de que sofrer é
apenas um parêntese e que basta esperar, porque as coisas
vão passar, é preciso refletir, pois o parêntese
pode durar bastante tempo, e é melhor integrá-lo
à vida, o que pode nos dar mais força, maior combatividade.
BF – Há sempre descobertas a serem
feitas no país da dor, dizia Madame de Staël. “Eu
sei sofrer”, escreveu ela. Qual o sentido dessa afirmação?
CT — Madame de Staël (escritora
francesa, 1766-1817) é um exemplo apaixonante. Ela é
a mulher que Napoleão mais odiou. Representava a liberdade
de expressão, a autonomia, não por seu dinheiro,
mas por sua personalidade. Várias pessoas a habitavam:
mulher pública, escritora... Era muito forte, uma mulher
íntima, ferida. Suas cartas de amor eram terríveis,
com momentos de acusação, ressentimento, desesperança.
Ela era intelectualmente impressionante e quase sempre foi abandonada.
E foi abandonada exatamente porque era impressionante. Sua inteligência
e seu talento eram muito visíveis, e era quase impossível
para um homem suportar uma personalidade tão intensa
e notável. Ela sofreu pelo “a mais” que tinha.
Aliás, em seus livros, ela falou da “mulher superior”.
Foi a primeira a utilizar esse conceito e usou para si mesma.
(risos.)
BF – Ela sofre de um talento nem sempre
reconhecido.
CT — Esse é um sofrimento bastante
comum entre as mulheres. O número de mulheres no mundo
que podem dizer que foram até o limite de suas possibilidades
intelectuais e de talento é bastante reduzido. No início
do século 19, Madame de Staël foi a primeira que
compreendeu isso verdadeiramente. Ela percebeu que tinha um
privilégio extraordinário e também um verdadeiro
sofrimento, talvez não manifestado, a ser vivido além
de suas capacidades. Um sofrimento sem palavras.
BF – A senhora cita também o diário
de Etty Hillesum (1914-1943), judia holandesa que morreu nos
campos de concentração nazistas. “Nós
temos o direito de sofrer, mas não de sucumbir ao sofrimento”.
CT — Etty Hillesum manteve um magnífico
diário durante três anos, em Amsterdã, antes
de ser enviada para Auschwitz, o maior campo de concentração
da Segunda Guerra Mundial. Seus escritos foram totalmente partidários
da vida. Ela não escondeu a verdade em torno dela, mas
quis que o tempo que lhe restava de vida fosse passado sem ameaças.
Ela sofreu, mas se recusou a sucumbir. O diário lhe deu
força para isso. Penso que escrever pode ser algo que
renove as forças e permita descobrir a si mesmo, ao mesmo
tempo que torna o sofrimento consciente.
BF — A senhora descreve diferentes formas
de sofrer e abordar o sofrimento, em diferentes épocas.
Como vê o sofrimento nos dias de hoje?
CT — Nos séculos 17 e 18, na França,
a religião determinava que sofrer era uma boa coisa.
Foi uma época de expiação. Hoje, as pessoas
também têm uma força individual enorme.
Jovens com aids enfrentam com heroísmo a doença.
Houve um desenvolvimento de estratégias individuais para
enfrentar o sofrimento. E mesmo nas grandes tragédias
vê-se essa imensa e inaudita coragem das pessoas que sofrem.
A mídia, num primeiro momento, fala bastante, e depois
tudo passa, tudo se resume a números, mas as pessoas,
individualmente, continuam a enfrentar seu sofrimento. Não
há mais grandes discursos sobre o sofrer, porém
coisas ainda a inventar, novas redes sociais, com base na amizade
e na dignidade.
BF — A senhora conta que, quando veio
se instalar em Paris, em 1968, uma das primeiras imagens surpreendentes
foi a multidão no metrô, silenciosa e com o olhar
ausente, rumo ao trabalho. Como a senhora vê a relação
entre trabalho e sofrimento?
CT — Acredito que, nesse caso, existam
dois sofrimentos. Um deles está relacionado ao fato de
ter um trabalho e de se sentir angustiado e mesmo em pânico
pela possibilidade do desemprego. Outro sofrimento, que é
para mim mais enigmático, está relacionado aos
viciados em trabalho: ser excessivo, exigir que os outros entrem
nesse processo e se servir da profissão como uma forma
de autoflagelação, de autopunição
heróica. A tal obsessão pelo trabalho. E, ao mesmo
tempo, queixam-se constantemente dele. Muitas pessoas que têm
a chance de ter um bom desempenho não conseguem realizá-lo
de forma prazerosa nem aproveitam o tempo para fazer outras
coisas. É algo bastante curioso.
BF — A senhora diz que é preciso
saber sofrer para bem viver. Pessoalmente, o que considera viver
bem?
CT — É eu ficar atenta ao que
está a minha volta, disponível para novos encontros.
É viajar, mas também viajar dentro de Paris, onde
vivo. Deixar que os acontecimentos me abram para outras coisas.
Nos momentos em que estamos bem, tudo está aberto. Quando
estamos mal, quase tudo leva a nada, como um universo que se
reduz.
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“É perigoso se nos convencemos de que basta
esperar para que o sofrimento passe, pois pode demorar.
O melhor é integrar a dor à vida, o que gera
força e combatividade”
Chantal Thomas, filósofa francesa. |
Os sofredores clássicos
Para refletir sobre a dor do amor, a filósofa Chantal
Thomas solicitou ajuda das sofridas cartas da francesa Julie
de Lespinasse (1732-1776) e também dos versos do poeta
alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926).
No capítulo sobre a espera, a autora cita os diários
do escritor Franz Kafka, mas também sua própria
experiência pessoal. “Nós esperamos alguém,
um acontecimento, um sinal. Não sabemos o que exatamente.
Alguém que, de um dia para o outro, mudará nossa
vida e a transformará em festa. O problema é que
esperar não é somente bastante perceptível
como levemente repulsivo. A espera distancia, mata a excitação.
Quem quer esperar? Quem deseja preencher uma espera? É
exatamente o contrário. O outro deve surgir ao acaso,
subverter o cenário”, escreve Chantal Thomas.
O livro de memórias A História de Minha Vida,
do sedutor italiano Giacomo Casanova (1725-1798), inspira o
capítulo “Esquecer”. Casanova ama a solidão,
e é ela a origem de suas mais belas histórias.
Diante da repentina morte da jovem Charlotte, que ele acabara
de conhecer, Casanova opta pelo esquecimento para continuar
o jogo do encontro e da surpresa, o perpétuo sobressalto
de uma vida nova. Recordações da Casa dos Mortos,
de Dostoiévski, A Peste, do escritor francês Albert
Camus (1913-1960), O Colapso, de F. Scott Fitzgerald (1896-1940),
ou A Gaia Ciência, de Nietzsche, são algumas das
tantas obras que inspiraram Chantal a revelar os segredos do
sofrimento.
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“Sofrer de amor nos torna invencíveis”,
afirma Chantal Thomas. |
Texto: Fernando Eichenberg
Ilustração: Carlo Giovani
julho 2004
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