autoconhecimento

Jordan e a terapia da musica

Quando desce do palco, o guitarrista americano Stanley Jordan tem outro trabalho menos conhecido: usar seu talento para ajudar no tratamento de pessoas com problemas físicos e mentais. Nesta entrevista exclusiva, Jordan fala de musicoterapia e da influência positiva dos sons.

O guitarrista americano Stanley Jordan é reconhecido como um dos grandes músicos da atualidade. Menos notado que seu talento é seu trabalho com musicoterapia. Membro e porta-voz da American Music Therapy Association, Jordan concilia sua agenda de shows com visitas a hospitais e centros de recuperação, onde dá palestras e acompanha o trabalho dos profissionais que usam sons nos processos terapêuticos.

Seu interesse pela cura não convencional começou no final dos anos 80, quando um especialista em quiropraxia (um tipo de massagem) em uma única sessão livrou-o de fortes dores na perna – que cinco médicos não haviam sido capazes de aliviar. “Descobri que a dor pode ser provocada pelo desequilíbrio do fluxo energético no corpo. Isso me levou a investigar outras áreas de medicina natural, até que uma musicoterapeuta me apresentou à técnica”, conta Jordan. “Percebi que parte de minha missão era contribuir para melhorar os processos de cura – meu e dos outros – por meio de minha música.”

Aos 45 anos, em visita ao Brasil, Jordan falou com Bons Fluidos exclusivamente sobre o poder harmonizador da música e sobre os sons do Universo.

Bons Fluidos – O que a música pode fazer, além de nos divertir?
Stanley Jordan – Classificar a música como entretenimento ou arte fica muito aquém de seu verdadeiro potencial. Ela é capaz de nos tocar profundamente e desempenha um papel importante em nosso crescimento emocional e espiritual. Hoje, os musicoterapeutas têm um vasto campo de trabalho e vemos profissionais atuando em hospitais, clínicas psiquiátricas e centros de recuperação.

BF – Como você se envolveu com a musicoterapia?
SJ – O ponto de partida foi um anseio pessoal de ir além do sucesso artístico e comercial, gravar álbuns e fazer concertos. Uma musicoterapeuta me apresentou à vasta literatura sobre o tema e comecei a me interessar. Freqüentei um curso na Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, mas não de uma maneira formal, pois estou sempre ocupado com a carreira. Continuo meus estudos de forma independente. Mantenho contato com musicoterapeutas em diversas partes do mundo e também dou palestras para músicos e profissionais de saúde, como médicos e psicólogos.

BF – De que maneira a música age na mente e no corpo?
SJ – Ela atua em diversos níveis. Relaxa, acalma e ajuda a diminuir o estresse, estimulando o cérebro a produzir endorfinas, as substâncias que promovem a sensação de bem-estar. Também melhora a concentração e facilita a comunicação e a integração social. Por meio de técnicas específicas, pode auxiliar na recuperação e no desenvolvimento da capacidade motora e sensorial de deficientes físicos e mentais.

BF – Dá para encaixar o trabalho terapêutico na agenda dos shows?
SJ – Quando saio em turnê, aviso meus agentes e relações-públicas sobre meu interesse e eles me colocam em contato com as instituições e os profissionais da área.

BF – Dê um exemplo de como usa a música nesses encontros.
SJ – Nos pacientes com dificuldades cognitivas, por exemplo, a noção de ritmo contribui para o aprendizado dos números. Funk, rock, blues, gospel e jazz utilizam seqüências binárias e quaternárias (Stanley dedilha a guitarra e canta “um, dois, três, quatro... Um, dois, três, quatro...”). Enquanto toco, as crianças batem palmas e contam. Para ensinar as direções – esquerda, direita, frente, atrás –, coloco as crianças em volta, toco e canto uma canção que fala “todo mundo pula para a frente, todo mundo pula para trás, para a esquerda”. Vou pulando e eles vão acompanhando meus movimentos.

BF – A musicoterapia é particularmente eficiente com crianças, não é?
SJ – Elas são muito abertas e interessadas. Com elas procuro me comunicar da maneira mais simples e direta possível. Em vez de dizer que a música “expressa nossas emoções”, digo que ela “mostra como a gente se sente”. Certa vez havia uma garotinha meio manhosa, choramingando, e toquei para ela uma música realmente triste. E ela desatou a chorar de verdade, muito sentida. Em seguida, cantei para ela uma canção que dizia “tudo está bem porque nós te amamos”, e ela foi acalmando. É essa a incrível capacidade que a música tem de nos colocar em contato com as emoções mais profundas e ajudar a expressá-las, a colocá-las para fora.

BF – A música pode curar?
SJ – É preciso tomar cuidado com essa afirmação, pois existem diferentes níveis de cura. A música pode ser bastante curativa para certos pacientes, apesar de não restabelecer a saúde propriamente dita. Sou particularmente interessado na possibilidade de a música ajudar doentes e deficientes a compreender, assimilar e superar a dor e as emoções associadas a sua condição. No caso de doenças como o câncer e a aids, a música propicia esse trabalho interior.

BF – Como isso acontece?
SJ – Certa vez, em uma sessão com um paciente de aids, a musicoterapeuta que o assistia pediu que ele escolhesse uma canção para que cantássemos juntos. Foi The Greatest Love of All (sucesso da cantora Whitney Houston, que fala que “o maior amor de todos” é aquele que se nutre por si mesmo, o amor-próprio). A escolha fez todo sentido porque a aids é uma doença que envolve muita vergonha, e a letra dessa canção ensina a importância de recuperar o orgulho, de nos aceitarmos e amarmos o jeito que somos.

BF – Existe algum ritmo ou gênero musical que sejam especialmente curativos?
SJ – É importante não fazer conexões radicais porque a ressonância de um estilo de música dentro da pessoa depende de seu gosto e formação. Durante os estudos que tentam predizer quais padrões induzem a determinadas emoções, os pesquisadores fizeram uma importante distinção: pode haver uma emoção na música e outra no ouvinte. Uma música alegre pode deixar alguém triste quando se está deprimido e a letra expressa sentimentos opostos aos que se está vivendo. Ou, ainda, a canção alegre deixa ainda mais evidente o quanto se está triste.

BF – Estimular o paciente a tocar um instrumento também é terapêutico?
SJ – Sim, claro. Hoje, em vez de prescrever para os doentes com dificuldades respiratórias exercícios com aparelhos, que são repetitivos e entediantes, os terapeutas sugerem que eles aprendam a tocar um instrumento de sopro, como o clarinete. É muito mais gratificante.

BF – É verdade que você tem feito experimentos sobre a música produzida pelos planetas?
SJ – Na verdade venho desenvolvendo não só uma teoria como também ferramentas que transpõem as informações da ciência para uma linguagem musical, acessível a músicos e musicoterapeutas, que geralmente não têm formação científica. Quero estabelecer as relações da química, física, astronomia, geologia, meteorologia, por exemplo, com a música.

BF – Qual o princípio dessa aproximação?
SJ – No Universo, tudo é energia, vibração, como as notas musicais, que afetam os corpos físicos. Veja as moléculas, por exemplo. Depois de tomar um banho quente, a sensação de calor perdura porque as moléculas do corpo continuam vibrando. Para analisar a acústica de um teatro onde vou me apresentar, bato palmas e ouço como o som volta para mim. Os astrônomos fazem o mesmo para descobrir a estrutura química de um astro por meio de emissões de luz e som.

BF – E os planetas produzem música?
SJ – A Terra leva cerca de 365 dias para fazer o percurso em torno do Sol, enquanto Mercúrio leva 88, em uma proporção de quatro para um. Ao transpor essa informação para a escala de notas musicais, Mercúrio estaria quatro oitavas acima da Terra (Jordan dedilha na guitarra notas graves para a Terra e agudas para Mercúrio). Esses e outros dados, convertidos em sons musicais, fazem parte de um software que venho desenvolvendo para ser usado em aplicações científicas.

BF – Você tem algum tipo de retorno sobre esse trabalho?
SJ – Há algum tempo, em uma apresentação na Nasa (agência espacial americana), falei dessa conversão de dados em sons. E agora, um pouco antes de vir ao Brasil, vi que os pesquisadores de lá conseguiram gerar sons que mostram as mudanças do campo magnético solar. Isso foi a prova de que minha pesquisa está no caminho certo.

“a música pode ser muito curativa, mesmo se não leva o doente a recuperar efetivamente a saúde. Ela o ajuda a assimilar e superar a dor e a tristeza”
“No Universo, tudo é energia, vibração. Como as notas musicais, que afetam os corpos físicos”
O guitarrista dedilhando seu instrumento

 

Texto: Wilson F. D. Weigl
Fotos: Luciana De Francesco

outubro 2004

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