Randy e sua família • Lição que não se desfaz • Trechos do livro CONSCIÊNCIA E CONSTRUÇÃO Texto • Kátia Stringueto “Ter consciência da finitude, por mais contraditório que possa parecer, nos ajuda a crescer. É um susto que amadurece, que nos leva a transar com proteção ou a construir relações mais estáveis. De alguma forma, faz brotar a idéia da construção e do planejamento. Já que não viverá 300 anos, o homem não pode deixar para pedir a mão da mulher que ama daqui a três décadas”, diz Jorge Claudio Ribeiro, professor titular do departamento de teologia e ciências da religião da PUC-SP.

No caso de Randy, a notícia da morte tão próxima lhe causou exatamente esse planejamento urgente traduzido na ânsia por deixar seu legado escrito e filmado. Ele escreve como vive, de forma acelerada. Preocupado com o tempo, tenta ser objetivo. Seu recado final chega praticamente em forma de lista: é importante ter sonhos específicos; sempre tenha algo a oferecer, pois assim será mais bem recebido; procure o melhor em todos; às vezes, tudo o que é preciso fazer é pedir...

Quanto a listas assim, os especialistas fazem apenas um adendo: viver é diferente de lidar com expectativas. “Nietzsche (filósofo alemão do século 19) dizia que o grande desafio da vida é se tornar o que a gente é. Quanto mais descobrir quem eu sou, menos expectativas e ilusões vou criar”, pontua Bartoli.

A escritora e psicóloga Maria Cecília Vicente de Azevedo, também de São Paulo, concorda e acrescenta que às vezes ficamos tão obcecados pela realização de um sonho que ele se torna uma meta única. “Projetamos tanto que esquecemos de viver o dia-a-dia. A grande glória é se cada um, naquele dia final, puder aceitar que viveu o que pôde e como pôde. Não é pouco. Muitas vidas boas acontecem sem que a gente registre. Liberdade, por exemplo, de ir e vir, de se vestir, de comer o que se tem vontade, de ver quem se gosta, tudo isso às vezes fica pouco valorizado”, diz.

Segundo a especialista, mais importante do que o que fazemos com o tempo que temos é o que fazemos com a vida que temos. Ela lembra do filme canadense Minha Vida sem Mim, que apesar de ser uma ficção trata da mesma temática do livro americano. Em uma cena, a protagonista diz que a vida inteira foi um sonho e só agora, quando recebe uma notícia ruim, está acordando. “Acho importante pensar nisso. Com sorte, será um legado que poderemos deixar a nossos filhos, amigos, pessoas queridas. Imagine dizer: vou deixar o dia de hoje de presente. Sempre, hoje é tudo o que temos”, conta Maria Cecília.



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