Viagens • Na chapada Diamantina • No deserto do Novo México Pé na estrada Paris, Japão, Alpes suíços, Amazonas, Salvador, a viagem do fim de semana à praia. O destino nem sempre importa tanto. O que vale é conhecer lugares e perceber que da estrada a gente traz as experiências e as lembranças que, afinal, nos definem. Deste olhar aventureiro, surgem lições para a vida toda. Texto • Ana Holanda A jornalista americana Elizabeth Gilbert passou um ano viajando pela Itália, Índia e Indonésia. A aventura deu origem ao livro Comer, Rezar, Amar, publicado recentemente por aqui pela editora Objetiva. A obra vendeu mais de 4 milhões de exemplares e descreve de um jeito singelo o ano que, segundo ela, mudou sua vida. Em um trecho do livro, Elizabeth compara a viagem a um remédio pessoal para solucionar uma fase difícil – ela passou três anos deprimida por conta do divórcio. Seu relato nos mostra que a estrada, seja ela qual for, tem muito a nos ensinar. Na estrada, tem quem busque curar feridas internas ou procure respostas para aflições, há quem viaje atrás da realização do desejo de conhecer novos horizontes ou vá de encontro ao que um sonho revelou durante a noite. As motivações podem ser muitas e as lições também, seja na maneira de perceber o mundo, seja nos laços que se estabelecem nesse caminho, seja em relação a si mesmo. “Acreditamos que faremos uma viagem, mas logo a viagem nos faz, ou nos desfaz.” Essa frase foi escrita pelo fotógrafo e escritor suíço Nicolas Bouvier (1929-1998), que cruzou a Europa e o Oriente. Muito do que viu e sentiu serviu de inspiração para seus escritos. Aqui, a gente registrou o relato de três sensíveis viajantes e em nosso site você também pode relatar um pouco do que apreendeu em suas estradas e andanças.

Nos confins do oceano Pacífico
Rapa Nui ficou na memória como um lugar onde tivemos demonstrações de como as pessoas podem interagir sem reservas, com autenticidade e com espírito de fraternidade.

Fecho os olhos. De mãos dadas com o melhor guia local, eu caminho lentamente, subindo os últimos 20m de uma pequena colina. De repente, ouço o aviso para parar e abrir os olhos. Diante de mim, a cratera do vulcão Rano Kau, uma das visões mais inesperadas, grandiosas e fantásticas que já tive.

Como é que eu fui parar ali? Sou a fotógrafa oficial da Travessia do Pacífico, uma expedição do velejador brasileiro Beto Pandiani e do francês Igor Bely, que estão cruzando todo o oceano Pacífico num pequeno catamarã sem cabine. E foi assim que cheguei a Rapa Nui, ou ilha de Páscoa.

Como essa é a segunda vez que acompanho uma expedição do Beto, sei que a pequena jangada hightech, como ele costuma chamar o barco, é uma espécie de “embaixador” que encanta as pessoas. O fato de ser tão pequeno faz com que todos, admirados, nos abram sua casa para um banho ou uma refeição e para ouvir e contar histórias.

Em Rapa Nui, fomos recebidos por uma simpática família que nos contou a história da ilha. Levou-nos a conhecer lugares e, claro, os inacreditáveis moais, as enigmáticas esculturas de pedra. Tito Atan, nosso anfitrião, um dos pioneiros em guiar turistas por lá, nos fez rodar a ilha de todas as formas: a pé, de bicicleta, de carro, a cavalo. Algumas noites, nos deu aulas de cultura rapa nui. Sua mãe, Maria, cantou kai-kais, contos passados de geração em geração, cantados pelas mulheres e encenados com um barbante nos dedos das mãos.

Na chegada à ilha, que faz parte da Polinésia, Igor e Beto foram recepcionados, ainda no mar, pelos remadores locais de pirogas (ancestrais canoas polinésias). Um remador subiu e os saudou no idioma local, denominado também rapa nui. A cada grito de guerra do líder, seus companheiros, nas canoas, entoavam respostas num diálogo incompreensível, mas cativante. Mal sabíamos que o mais emocionante estava ainda por vir: em terra, eles preparavam o umu tahu, um antigo ritual realizado sempre que se inicia algo importante na vida, como o casamento, o nascimento, a inauguração de uma casa nova. Homens com corpos e rostos pintados cantam e dançam, e a intenção é desejar boa sorte.

Rapa Nui ficou na memória como um lugar único, onde tivemos demonstrações de como as pessoas podem interagir sem reservas, com autenticidade e, principalmente, com espírito de fraternidade – algo que há muito se abandonou por completo ou se retraiu nos grandes centros. Com um aperto no peito na hora de partir, deixamos verdadeiros amigos.

MARISTELA COLUCCI é fotógrafa e nos contou esta história quando ainda estava em pleno oceano Pacífico.



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