Viagens • Nos confins do oceano Pacífico • Na chapada Diamantina No deserto do Novo México A viagem ideal é, para mim, aquela em que você abandona sua zona de conforto, corre riscos e aceita o desconhecido. E às vezes, inclusive, se sente diminuído diante dele. Fui morar em Denver, no Colorado (EUA), no fim de 2006. Só que eu tinha uma posição de pesquisadora visitante na Universidade do Novo México, em Albuquerque, aonde ia com freqüência – são 700 km de estrada –, comumente de avião, mas em duas ocasiões de carro, passando pelas cidades de Santa Fé e Taos.

Na primeira vez em que cruzei essa estrada de carro, meu marido e eu tomamos um caminho errado e fomos levados a atravessar a Carson National Forest, uma das cinco florestas nacionais do Novo México. No topo de uma montanha, que ninguém mais cruzava, além de nós, demos de cara com um lobo. Já era quase noite, e ele andava tranqüilo em meio às árvores e à neve. Parecia uma espécie de espírito do lugar: silencioso, arredio, solitário.

Já foi dito antes, mas é difícil escapar à repetição: a dimensão do espaço e do silêncio nesses lugares parece nos reduzir à frágil condição humana – somos seres que, se largados sem nenhum tipo de auxílio no deserto do Novo México, não sobreviveriam. Pensar nisso e transitar por ele mesmo assim equivale a uma aceitação dessa precariedade e dessa transitoriedade.

A viagem ideal é, para mim, aquela em que você abandona sua zona de conforto, corre riscos e aceita o desconhecido. E às vezes, inclusive, se sente diminuído diante dele.

Quando você viaja, deixa de pertencer. É o contrário do turismo predatório e confortável, em que se segue rapidamente para a próxima cidade. Na viagem ideal, você fica sem ponto fixo, sem raízes. Ouve novas falas, muitas das quais não entende, vê novos rostos e paisagens, prova sabores. E quando retorna a sua casa, depois do tempo que for, percebe que trouxe algumas coisas do caminho, sim – mas que também deixou, num sentido positivo, algumas coisas para trás.

ADRIANA LISBOA é escritora e adora viajar na companhia do marido e do filho. Ela é autora do livro Rakushisha (ed. Rocco).



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