Paulo Ghiraldelli e Francielle Chies sobre o propósito da vida

O casal de filósofos concedeu uma entrevista para a Bons Fluidos e falaram sobre o propósito de vida

Texto: Leonardo Vinhas e Veridiana Mercatelli | Foto: Divulgação | Adaptação web: Tayla Carolina

Paulo Ghiraldelli e Francielle Chies | <i>Crédito: Divulgação
Paulo Ghiraldelli e Francielle Chies | Crédito: Divulgação


É possível definir um propósito de vida “permanente” – isto é, que valha para toda a vida – ou isso é algo mutável, sujeito à nossa experiência, maturidade e ambiente?

Hoje em dia estamos mais acostumados a tomar a vida como contendo mudanças de rumo. Ninguém pensa em nascer, viver e morrer no mesmo lugar, tendo feito sempre as mesmas coisas.

A chamada vida moderna urbana é cheia de contingências. Abdicamos de colocar propósitos ditos “permanentes”, acreditando que tal coisa não é possível ou, pior ainda, que nos trará arredios diante das mudanças necessárias. Mas isso é um erro, pois a vida moderna é também o aprendizado do planejamento.

Sem linhas mestras, sem grandes propósitos, o cotidiano nos engole. Viver é, em grande medida, administrar o tempo. Fazemos isso bem se uma parte do dia é dedicada aos propósitos mais duráveis, aos projetos de vida que têm a ver com princípios. Por que não podemos ter, como princípio, um projeto colaborativo para que a vida de todos – e isso inclui os animais – tenha menos crueldade? 

 

“Sentido” e “propósito” de vida são sinônimos, ou são conceitos distintos?

De fato, “propósito” é uma coisa e “sentido” é outra coisa. O sentido é sempre o que, mesmo para os não religiosos, tem a ver com algo exterior, algo que está ou na história ou na natureza ou no cosmos etc.

Descobrimos o sentido, não o inventamos. O propósito é o sentido inventado, posto por nós. Temos propósitos na vida, queremos realizá-los. Não devemos fundir isso, sentido e propósito, de modo banal, mesmo que não sejamos religiosos.

É bom guardar uma esperança de que podemos separar tais coisas. É bom saber que a Terra gira por ela mesma, e que nós, do nosso lado, giramos como queremos. 

 

Vivemos em uma sociedade que incentiva o consumo de forma voraz, de modo que, para muitos, o propósito de vida está em aquisições. O quanto essa busca por posses é pertinente e o quanto é danosa para o propósito de vida?

Nos anos 70, alguns filósofos incentivaram a ideia de que estávamos vivendo pelo “ter”, e não pelo “ser”. Mas, nessa mesma época, um filósofo francês chamado Gui Debord, autor do livro “A sociedade do espetáculo”, disse coisa diferente: não vivemos pelo “ter”, mas pelo “parecer”.

É importante que sejamos vistos por outros e por nós mesmos. Se todas as mercadorias nos fazem ser espectadores delas, se passamos diante da vitrine como ficamos diante da TV (ou da internet, que simula certo interacionismo, mas não o realiza), aprendemos a viver diante do “aparecer” ou do “parecer” (que às vezes se confunde).

Assim, também nós mesmos e nossas vidas se tornam alguma coisa que, para existir, para ser real, tem de estar à mostra. Trata-se do começo do fim da vida privada. Debord acertou em cheio.

Se ele estivesse vivo, diria: “Eis aí todo mundo tirando selfies e todo mundo mandando nudes ou mostrando fotos do que está comendo nesse momento, mesmo que não estejam realmente comendo.” É necessário estar no campo visual do outro, por meio da maquinaria, para se sentir como estando na vitrine e, então, ganhar de fato realidade, existência.

Ser uma mercadoria na vitrine é a verdadeira existência! Consumir não faz sentido se não for para fotografar o consumo. Essa simbologia se amplia de tal maneira que, hoje, nem é importante consumir, mas se apresentar como amante do consumo.

Há grupos de pessoas que não adoram produtos, mas as marcas dos produtos. Há pessoas que vestem camiseta de marca, mas não pelo status disso, e sim porque querem que a marca da camiseta seja, ela mesma, o desenho que vem estampado na camiseta. “I love brands” é o lema desta nossa época.

 

Pode ser dito que, hoje em dia, com tanta linguagem corporativa e “empreendedora” sendo aplicada no cotidiano, as pessoas acabam confundindo metas profissionais com propósito de vida?



O filósofo germano-coreano Byung-Chul Han diz que, na fase atual do capitalismo que vivemos, não há mais, ao menos no imaginário, a nítida figura do patrão e a do empregado.

Mas todos são incentivados a serem tomados como patrões de si mesmos. Ou como empresários ou pseudoempresários ou como empregados que se acham donos de si mesmos enquanto trabalhadores-empreendedores.

O resultado é que termina a exploração do empregado pelo patrão (no imaginário) e começa uma era de superexploração de todos por todos, ou melhor, de cada um diante de si mesmo.

Todos se autoempenham em performances, em situações de concorrência absurda. Todos se portam como estando numa esteira de academia, na autossuperação cotidiana.

A própria existência da academia de ginástica, criando a obtenção de performance no tempo livre, é um indício disso. A visão de Byung é unilateral, mas ela tem lá um tanto de verdade.

Serve para nos alertar de que trabalho é trabalho e ócio é ócio, e não deveríamos fundir ambos, mesmo que estejamos convencidos – erradamente – de que trabalhamos no que gostamos. 

 

Não se chega a propósito de vida sem autoconhecimento. Como conhecer a si próprio em uma sociedade que dá pouco espaço à contemplação e à reflexão?

De novo o filósofo Byung-Chul Han: ele reclama da falta de contemplação em nosso mundo. Mas o problema é que até a atividade contemplativa, a filosofia, no mundo moderno se tornou uma atitude do agente, algo que diz respeito ao fazer, ao realizar, ao se meter em um empreendimento (basta ver a doutrina do existencialismo ou do marxismo).

A vida moderna criou a figura do “sujeito”. Os indivíduos se tornaram sujeitos, ou seja, gente que tem “consciência de seus pensamentos, responsabilidade pelos seus atos e justificativa pelas ações”.

O indivíduo antigo dividia suas responsabilidades com os deuses. Nós, religiosos ou não, não fazemos isso. Não temos desculpas! Por isso, de certa forma, a vida moderna exige que tenhamos um conhecimento de nós mesmos.

Precisamos saber qual reação teremos diante de tal e tal coisa, para evitar complicações. O “conhece-te a ti mesmo” antigo, inscrito no Templo de Delfos e seguido por Sócrates, era relativo às posições sociais, hoje o “conhece-te a ti mesmo” é demasiadamente psicológico, é relativo ao que podemos sentir ou como vamos agir diante de tais e tais contingências.

Temos de estar preparados para uma entrevista, para uma pergunta do patrão, para uma traição da namorada ou do marido, ou ainda temos de saber o quanto suportaremos a perda de dinheiro, de emprego etc. Vivemos querendo saber “quem somos”, mas num sentido muito psicologizante. Talvez tenhamos que repor o “conhece-te a ti mesmo” em uma nova dimensão. 

 

Essa busca por propósito na vida parece estar presente na humanidade desde que ela dominou a linguagem. Porém, podemos dizer que hoje, com o mundo superpovoado e hiperconectado, essa busca se transformou?

Seria uma bobagem falar que a vida de cada um, independentemente de épocas, teve sempre propósito semelhante. Não podemos achar que a felicidade (eudaimonia) do grego antigo é a mesma felicidade nossa.

Não podemos achar que a felicidade do homem medieval, de encontrar Deus (ou seja, a satisfação máxima e perene), tem a ver conosco. O grego antigo se sentia bem se a cidade se sentia bem. Santo Agostinho, o último “grego” e o primeiro “medieval”, queria encontrar Deus dentro dele mesmo, e isso ele sentiria se não tivesse mais nenhum desejo.

A beatitude é exatamente isso: atingir o estado de não ter nenhuma necessidade, nenhuma carência nem pensar nisso. Nós, diferentemente, pensamos a nossa felicidade como independente da cidade, do estado, sempre achamos que ela está protegida no ambiente íntimo, ou na família ou mesmo dentro de nós, de cada um.

E pensamos nossa felicidade como estados felizes, e não como uma condição perene de satisfação plena – o encontro com Deus. Para nós, a cidade e Deus não trazem nenhuma felicidade, exatamente porque mudamos nossa noção de felicidade.

Somos seres que acham que há uma contingência extrema na felicidade, que o que vale como “ser feliz” é passar por alguns estados momentâneos de prazer. Não temos como sair disso. Não podemos voltar e nos tornar cidadãos da polis grega ou crentes num Deus que nos dá plenitude. Podemos fingir isso, mas não viver isso.

 

Como as religiões podem (ou não) ajudar nessa busca por propósito?



Todos nós, modernos, somos pessoas sem religiosidade alguma. Podemos frequentar cultos, fazer orações, lotar igrejas etc. Mas, como pessoas modernas do Ocidente, estamos diante da verdade de que “Deus está morto”.

Não acreditamos que exista algo absoluto. Falamos sobre verdade absoluta, mas em seguida logo dizemos “ninguém é dono da verdade”, “há a verdade de cada um”, “ninguém é mais que ninguém”, “respeite a minha verdade (ou te processo!)”.

A única coisa realmente universal que conhecemos, que está em todo lugar nos vigiando e nos guardando ou nos punindo, é o dinheiro. Mas não temos que entrar em desespero. Podemos preservar uma série de ensinamentos das religiões, sem que isso fique invalidado por conta de Deus estar morto.  

Diminuir a crueldade do mundo é um preceito cristão que vale a pena ter como meta utilitária, e isso independe de termos ou não fé em Cristo como alguma coisa transcendente etc.

Há uma série de preceitos morais que podem fazer a vida mais prazerosa, menos dura, mais justa. Se isso vem do que restou da religião ou não, tanto faz.

 

Qual é o primeiro passo para uma pessoa iniciar essa busca por propósito?

Os filósofos Peter Sloterdijk e Gilles Lipovetsky dizem que o mundo atual é “leve”. Em que sentido dizem isso?

Ora, numa perspectiva macro: temos uma sociedade em que as horas de trabalho diminuíram, em que a gravidez não é um destino, em que o cuidado com os filhos e com doenças é menos sofrido, em que a tecnologia favorece mais tempo livre, em que as ilhas de abundância se ampliaram, em que até mesmo a infância e a juventude aumentaram em anos e, enfim, em que a própria ideologia da época pede que tudo seja uma grande brincadeira.

O próprio trabalho, mesmo que seja extenuante, está impregnado de imitações do lúdico. Se há performatividade extrema, ela se integra na performatividade do jogo. O jogo é um elemento do cotidiano.

O jogo eletrônico, então, nem se fale. Há uma tendência antigravitacional em tudo, diz Sloterdijk. Assim, diz ele, chegamos ao ponto de pedir algum sofrimento, alguma dureza, para não perdermos a sensação de que estamos na realidade.

Tudo funciona como se vivêssemos a “insuportável leveza do ser”. Em uma sociedade que tem essas características, ao menos no geral, e mesmo para os pobres (numa perspectiva histórica), como colocar propósitos que não sejam banais, que não sejam o culto da própria frivolidade da época?

Uns acham que funcionaria aí o autoconhecimento. Deveríamos repor Sócrates e seu “conhece-te a ti mesmo”. Mas de uma maneira autêntica, não psicologizada de modo barato.

Assim, o conhece-te a ti mesmo não deveria ser o conhecimento de Maria como Maria e de João como João, mas de Maria como quem vive e sente na cidade, na família, nos seus encargos, na condição de ser minoria ou não etc.

Assim o mesmo para João. Um conhece-te a ti mesmo com mais antropologia e com menos psicologismos da “autoajuda” valeria a pena. Isso nos auxiliaria em muito para podermos colocar propósitos diferentes daqueles já postos pela leveza imperativa como ideologia. 
 

Paulo Ghiraldelli e Francielle Chies são responsáveis pelo site ghiraldelli.pro.br e pelo CEFA (Centro de Estudos em Filosofia Americana) e participaram da matéria de capa da edição 230 da revista Bons Fluidos. 

 

 

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10/07/2018 - 10:13

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