Uma conversa com Sri Prem Baba

Leia a entrevista exclusiva com Sri Prem Baba sobre a busca de propósito

Texto: Leonardo Vinhas e Veridiana Mercatelli| Foto: Divulgação| Adaptação web: Tayla Carolina

Sri Prem Baba | <i>Crédito: Divulgação
Sri Prem Baba | Crédito: Divulgação


É possível definir um propósito de vida “permanente” – isto é, que valha para toda a vida – ou isso é algo mutável, sujeito à nossa experiência, maturidade e ambiente?

Existe apenas um propósito maior e esse é permanente. Refiro-me ao propósito da vida, o que inclui não somente o propósito humano, mas também o de todos os reinos da natureza, do planeta, das galáxias e de todo o universo.

O nosso planeta também tem um propósito, uma missão a ser cumprida. E assim como ele existe por uma razão e está realizando uma meta, todo o universo também se move constantemente em direção à realização de um propósito.

Na verdade, nada é por acaso, tudo tem uma razão de ser. A ideia de que o universo é produto do acaso (de um acidente cósmico como o big bang) é um grande equívoco.

O universo não existiria se não houvesse uma vontade por trás disso. O propósito é a realização de uma vontade superior ou divina. Se não houvesse essa vontade, não haveria vida.

Cada estrela, cada flor, cada folha, cada inseto, cada átomo tem um propósito, uma razão de existir. E essa razão é o que também chamo de programa. No nível mais profundo, o programa da alma (o propósito individual de cada ser) também é imutável, pois está em sintonia direta com o propósito maior da vida, que é a realização do Amor real.

Porém, durante uma encarnação, você pode ter a impressão de que o propósito muda, já que o Amor pode se manifestar de diversas maneiras, de acordo com seus potenciais e virtudes.

Cada ser traz consigo dons e talentos que são presentes a serem entregues para o mundo, e esses presentes representam a forma particular como o amor se expressa através de cada um.

Então, de acordo com o seu amadurecimento espiritual, que é sinônimo de expansão da consciência, você vai se tornando um canal do Amor real; vai amando de forma cada vez mais pura e desinteressada, o que é sinônimo de se doar ou servir sem querer nada em troca.

Esse é o propósito imutável da vida, que também é o propósito da alma. Porém, você pode realizar esse propósito de diversas maneiras, não somente através da sua profissão, mas através de cada pensamento, palavra, sentimento e ação.

Se existe consciência a respeito do seu programa, não importa o que você faz no mundo, tudo se torna uma expressão do propósito. Algumas pessoas reconhecem seu propósito muito cedo e vivem de uma determinada maneira para o resto da vida, outras precisam mudar muitas vezes até poderem se sentir encaixadas, no lugar certo.

Mas não há nada de errado com as mudanças, afinal, elas são o coração te guiando para onde você precisa ir. Tudo pode estar absolutamente certo, mas ainda assim a sua alma pode querer mudar de direção.

O seu coração pode te levar para outros caminhos, novas maneiras de viver a vida que proporcionem a renovação e a transformação necessárias para completar a sua meta.

 

Vivemos em uma sociedade que incentiva o consumo de forma voraz, de modo que, para muitos, o propósito de vida está em aquisições. O quanto essa busca por posses é pertinente e o quanto é danosa para o propósito de vida?

A busca pela realização material está dentro do programa do ego. O ego também tem um propósito – ele existe por alguma razão.

Além de fazer a ponte entre a matéria e o espírito, através do corpo físico, o ego e toda a psique humana é um sistema que permite a nossa interação com o mundo externo.

Por isso, o ego tende a buscar aquilo que o mundo considera importante. O ego tende a voltar-se para fora e iludir-se com as aparências. Por isso eu digo que o propósito do ego é um propósito externo, enquanto o propósito da alma é o propósito interno.

E, dependendo do nível de ilusão em que a psique encontra-se envolvida, o propósito externo (a vontade do ego) se move na direção oposta do propósito interno (a vontade da alma), e o resultado disso é o que conhecemos por sofrimento.

Não há nada de errado com o propósito externo; não há nada de errado em querer ter dinheiro e viver confortavelmente, o problema é quando você vive em função disso e se esquece do resto.

O problema é quando você se torna um escravo do dinheiro e do poder, pois é nesse momento que o ego toma conta e a vontade da alma é esquecida. É o ego adoecido, tomado pelo orgulho e pela vaidade, que se corrompe diante do poder.

É o egoísmo que nos faz esquecer o propósito maior da vida. Quando isso acontece você passa a acreditar na ilusão de que a felicidade vem de fora e depende dos seus bens materiais.

A busca pela realização material deve estar atrelada à busca da realização espiritual, ou seja, da realização interior. E essa realização diz respeito à manifestação do amor que te habita através dos seus dons e talentos; através da sua dedicação, da sua generosidade, da sua bondade e de todas as suas virtudes.
 

Pode ser dito que, hoje em dia, com tanta linguagem corporativa e “empreendedora” sendo aplicada no cotidiano, as pessoas acabam confundindo metas profissionais com propósito de vida? Reduzimos nossa existência apenas ao utilitarismo econômico?

É muito comum confundir o propósito com a profissão, mas a profissão é apenas um aspecto, uma maneira de realizar o propósito. A sua profissão pode ser um meio de realização do propósito quando você realmente faz aquilo que ama, aquilo que nasce da sua essência e que sua alma determina.

Quando isso acontece, você se sente encaixado, pertencendo a algo maior, e isso te impulsiona a continuar dando o seu melhor. Você se sente inspirado não somente a ser um profissional melhor, mas uma pessoa melhor.

O que realmente importa é você ser uma pessoa melhor. Esse deve ser o seu foco, o resto vem por consequência. Ser uma pessoa melhor implica conhecer a própria maldade para deixar de atuar nela.

Significa estar alinhado com o propósito maior e desenvolver virtudes espirituais. Se você realmente ama o que faz, se faz com alegria, isso naturalmente se reflete em todas as outras áreas da vida: financeira, relacionamentos, amizades, família, espiritualidade e assim por diante.

O problema é que vivemos numa sociedade utilitarista, que valoriza somente aqueles que servem aos interesses do sistema econômico. Avalia-se um bom humano pela sua utilidade dentro do sistema, ou seja, pela sua capacidade de fazer dinheiro e gerar lucro.

Nós precisamos rever esses conceitos equivocados para nos tornarmos pessoas verdadeiramente melhores – verdadeiros vencedores.

Muitos são os considerados “vencedores” que, apesar de terem conquistado dinheiro, poder e fama, ainda vivem angustiados e deprimidos, pois não se sentem preenchidos e satisfeitos. Seguem infelizes, enchendo o saco sem fundo do desejo, acreditando que podem comprar a felicidade, mas isso não é possível.

A verdadeira felicidade encontra-se dentro de cada um e a verdadeira utilidade do ser humano está em servir. A verdadeira vitória é poder doar seus dons e talentos para o despertar do amor coletivo; é poder ajudar o outro a brilhar e realizar seu propósito.

A realização do propósito está mais relacionada com o ser do que com o fazer. O propósito é uma manifestação da sua essência, daquilo que você é. Uma pessoa pode estar realizando seu propósito sem fazer nada.

Eu tive a oportunidade de conhecer alguns seres que vivem sentados em meditação, sem (aparentemente) fazer absolutamente nada, e têm maior utilidade para a humanidade do que todos os executivos de uma empresa freneticamente trabalhando juntos.

Esses seres servem ao propósito maior de forma silenciosa e anônima. Porém, também conheço pessoas que vieram com o propósito de despertar o amor através do seu trabalho em grandes corporações, e não há nada de errado nisso.

O que realmente interessa é ser um canal do amor, não importa onde você esteja. Coloque seu amor em movimento através dos seus dons e talentos e seja verdadeiramente útil.

 

De maneira semelhante, podemos dizer que “sentido” e “propósito” de vida são sinônimos, ou são conceitos distintos?

São sinônimos. Não pode haver sentido na vida sem que haja um propósito. É a inconsciência a respeito do propósito da vida que gera essa sensação de falta de sentido. A depressão é um sintoma da desconexão com o propósito da alma.
 

Não se chega a propósito de vida sem autoconhecimento. Como conhecer a si próprio em uma sociedade que dá pouco espaço à contemplação e à reflexão?

São muitas as maneiras. Esse é o meu trabalho. Tenho procurado criar meios para o autoconhecimento chegar ao maior número de pessoas possível. Uma dessas maneiras é através do cultivo do silêncio.

Tenho falado sobre o poder do silêncio há muito tempo e agora, através da campanha Apenas 1 Minuto, o movimento Awaken Love está conseguindo tocar milhares e milhares de pessoas.

O meu sonho sempre foi que essa prática e outras formas de conexão consigo mesmo estivessem presentes no currículo escolar. O autoconhecimento precisa estar disponível para todos através da educação.

E agora esse sonho está se tornando uma realidade. Em 2019 o autoconhecimento precisará estar no currículo de todas as escolas públicas e privadas do Brasil. Considero isso uma grande vitória do amor.

E isso só está sendo possível porque está havendo uma mudança nas estruturas da nossa sociedade. Por conta das nossas dificuldades e da tomada de consciência a respeito dos nossos erros, estamos começando a nos tornar mais reflexivos.

Estamos começando a ver que a maneira como vivemos até hoje não nos levou e não nos levará à felicidade. As próximas gerações já estão chegando mais predispostas ao novo.

As crianças do futuro serão bem mais conscientes do que nós fomos. Mas isso tudo dependerá da nossa capacidade de transformar a nós mesmos. É preciso criar um espaço para a contemplação e para a autoinvestigação em nossas vidas.

O autoconhecimento precisa ser uma prioridade, pois através dele é que nos tornamos capazes de ser verdadeiramente felizes. Mesmo que a sociedade queira continuar te levando para outra direção, você precisa estar firme na direção que o seu coração determina.

É preciso ter coragem para seguir os desígnios do coração, pois ele muitas vezes nos leva a seguir rotas completamente diferentes daquela que a sociedade determina.

Conheça a si mesmo e esqueça o mundo lá fora. Cultive o silêncio, tenha coragem de ser você mesmo e vá para o mundo usando sua verdadeira identidade.

Assim, pouco a pouco, você se tornará mais belo e poderá inspirar as pessoas que estão ao seu redor. Se pudermos ser a mudança que queremos ver no mundo, faremos toda a diferença.

 

Essa busca por propósito na vida parece estar presente na humanidade desde que ela dominou a linguagem. Porém, podemos dizer que hoje, com o mundo superpovoado e hiperconectado, essa busca se transformou?

Não saberia dizer desde quando a humanidade busca pelo propósito, mas sinto que, pelo menos da maneira como vemos hoje, essa busca é recente.

Acredito que sempre buscamos respostas, sempre buscamos por um sentido, mas de maneira bastante inconsciente. Sinto que hoje, apesar de tudo, estamos mais conscientes a respeito da importância desse tema.

Estamos mais abertos para encontrar as respostas para as questões: quem sou eu? Por que estou aqui? Nesse sentido, vejo que a busca se transformou, sim, especialmente devido à hiperconectividade.

Num mundo onde a informação está disponível em tempo real, somos levados a perceber muita coisa que antes não percebíamos. Esse cenário tem catalisado uma ampliação da percepção, inclusive a respeito das nossas instituições e das falhas no nosso sistema como um todo.

Com isso, estamos tendo a chance de tomar consciência da nossa própria sombra. Esse é um aspecto que considero fundamental para a nossa evolução.

Se não pudermos olhar para a nossa própria maldade e assumir responsabilidade pelos nossos erros, não poderemos criar uma nova realidade, mais amorosa, pacífica e próspera.

Olhando para a nossa história, vejo que existiu uma necessidade muito grande de amortecimento e esquecimento. Nós acabamos nos distraindo com a busca desenfreada pelo dinheiro. Nos encantamos com o poder.

Criamos muitos vícios para podermos esquecer, ou melhor, continuar esquecidos. Esquecidos de quê? Da nossa essência e do propósito de estarmos aqui.

Hoje, além da percepção a respeito da nossa insatisfação e da nossa destrutividade, estamos começando a compreender que o dinheiro e o poder não podem preencher o vazio existencial do ser humano.

Por isso vejo que essa nova onda da revolução industrial, que se manifesta através do desenvolvimento da ciência e da tecnologia da informação, é a força propulsora para uma revolução de consciência, que começa com o questionamento a respeito do propósito da vida.

Justamente porque precisamos amadurecer e expandir a consciência para podermos fazer bom uso da tecnologia.

 

Como as religiões podem (ou não) ajudar nessa busca por propósito?
A religião só poderá contribuir no processo de expansão da consciência quando se libertar do fanatismo e da consequente separação que este gera.

As antigas tradições guardam verdadeiras joias de sabedoria universal que são eternas, mas o ego se apropriou desse conhecimento, que começou a ser usado para manipular mentes e conquistar poder.

Nesse sentido, sinto que a religião precisa de uma atualização. A vida está em constante movimento, o mundo está se transformando, e o papel da religião é proporcionar um elo entre a alma encarnada na Terra e o grande espírito universal, e não criar separação e gerar guerra.

É tempo de abrir mão dos rígidos dogmas moralistas que vêm contaminando nossas mentes, reprimindo nossa espontaneidade e restringindo nossa liberdade.

Precisamos nos reconhecer como expressões do amor divino e lembrar que Deus está dentro de cada um de nós, manifestado em cada célula.

O conhecimento ancestral precisa ser preservado, mas deve ser adaptado ao novo mundo que está surgindo, e isso precisa ser feito através de líderes que estejam livres do desejo de poder e que já tenham despertado o verdadeiro amor e a compaixão dentro de si mesmos.

Além disso, precisamos nos abrir para os novos ensinamentos que estão chegando, pois a evolução é eterna. Esse é um tema muito profundo sobre o qual falarei com profundidade no meu próximo livro.

 

Qual é o primeiro passo para uma pessoa iniciar essa busca por propósito?
Eu sinto que o primeiro passo é estar buscando por ele. É estar procurando respostas para as grandes questões da vida. Assim, naturalmente a existência começa a guiar seus passos na jornada.

O primeiro passo é o seu intento, é a vontade sincera de conhecer a verdade e de ser você mesmo. A partir dessa vontade sincera, uma luz se acende dentro de você e o caminho se revela.

Considero que, se você está lendo estas palavras agora, a sua busca já começou. Sugiro então que procure ampliar a sua percepção a respeito da realidade espiritual que nos rodeia e desenvolver a sua capacidade de auto-observação, pois o autoconhecimento é a chave para a expansão da consciência.

Também recomendo um exercício que pode ser bastante útil nesse processo: procure olhar para a sua infância e lembrar-se daquilo que você amava, daquilo que você adorava fazer, dos seus brinquedos favoritos, seus heróis e tudo aquilo que você sonhava em ser/fazer.

Anote tudo e depois faça uma comparação com a sua vida atual. Veja se você está fazendo aquelas coisas que sonhava fazer. Veja se aquilo que você amava se manifesta de alguma maneira na sua vida hoje.

Esse exercício simples e lúdico pode te dar valiosas pistas a respeito do seu propósito, pois este se relaciona com a sua mais pura essência.

 



10/07/2018 - 12:04

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