O sim por trás do não

Ao invés de ser o fim de uma conversa, o “não” pode ser o início de um diálogo que inclui as necessidades de todos, de quem ouve e de quem fala

Yuri Haasz e Sandra Caselato

 Yuri Haasz e Sandra Caselato | <i>Crédito: Divulgação
Yuri Haasz e Sandra Caselato | Crédito: Divulgação


Às vezes temos receio de falar e de ouvir “não”. Falar, porque pode gerar impactos negativos em nossas relações pessoais e profissionais, ainda que a intenção seja cuidar de algo importante. E ouvir, porque pode ser muito difícil lidar quando interpretamos o “não” como uma rejeição total do nosso ser. A tensão que acompanha a expectativa de essa palavra ser mal
recebida pode se tornar uma profecia autorrealizada, e é preciso cuidado. Nossa expressão, linguagem corporal e tom de voz, muitas vezes, transmitem essa tensão e dificultam que o “não” seja bem recebido. Temendo esse resultado, às vezes optamos por dizer “sim” só para evitar mal-estar e garantir harmonia e aceitação – mesmo que não seja o ideal para nós.

Para sair desse ciclo vicioso, a Comunicação Não-Violenta (CNV) propõe um caminho. Seu fundador, Marshall Rosenberg, tinha o costume de perguntar: “Qual é o ‘sim’ por trás do ‘não’?”. A resposta a essa pergunta pode transformar nossas relações para melhor!

A CNV se fundamenta numa teoria de motivação humana que sugere que tudo o que fazemos e falamos são movimentos para atender necessidades humanas universais. Ou seja, para estarmos bem, precisamos ter nossas necessidades supridas, não apenas as fisiológicas, mas muitas outras também, como respeito, amor, consideração, confiança, conexão, pertencimento, segurança, sentido, realização. Já que compartilhamos dessas necessidades com todos os seres humanos, elas podem servir como base de entendimento e de resolução de conflitos entre as pessoas. E, para trilhar esse caminho, é preciso distinguir necessidades humanas universais de estratégias. O raciocínio é simples: estratégias são as formas utilizadas para atender necessidades. Enquanto uma é universal (as necessidades), a outra é específica (as estratégias), variando de pessoa para pessoa e de acordo com a cultura de cada um. Dizer “não” para uma estratégia que não atende nossas necessidades nada mais é que dizer “sim” a nós mesmos. Identifi car e expressar as necessidades que estão por trás do “não” facilita sermos compreendidos e, também, possibilita entendermos melhor o outro. Por exemplo: Yuri quer ir ao cinema, e Sandra não. Quais são as motivações por trás da vontade de cada um? Yuri quer ir ao cinema, pois essa é uma ótima estratégia para atender uma série de necessidades dele: diversão, novidade, inspiração. Já para Sandra, ir ao cinema não atende suas necessidades de conforto, relaxamento e tranquilidade. Nesse caso, quando a Sandra diz “não”, ela está dizendo “sim” às próprias necessidades, que, por sua vez, não podem ser atendidas na estratégia proposta pelo Yuri. Entender o “sim” por trás do “não” favorece a compreensão e a empatia, e, a partir daí, novas estratégias podem ser criadas para atender as necessidades de ambos. Talvez o Yuri vá ao cinema sozinho e a Sandra faça outra coisa, ou, quem sabe, decidam assistir a um filme em casa, juntos.



28/02/2018 - 09:00

Conecte-se

Revista Bons Fluidos