Cadernos de receitas

Esses acessórios, guardados no fundo da gaveta ou esquecidos em algum canto da cozinha, são registros preciosos (e afetuosos) de um tempo em que a vida seguia mais devagar e os aromas se espalhavam pela casa com mais liberdade e frequência

Texto: Ana Holanda

Cadernos de receitas | <i>Crédito: Shutterstock
Cadernos de receitas | Crédito: Shutterstock


Na minha casa da infância, comíamos carne de sol, feijão-de-corda e outras delícias nordestinas. É que minha mãe é pernambucana. E, quando se mudou para São Paulo, no final da década de 1960, fazer pratos de sua terra era a sua maneira de se manter próxima daqueles que estavam longe, afastados por milhares de quilômetros. Sem perceber, minha mãe, dessa forma, também me aproximou da família que só visitava uma vez por ano, nas férias escolares. Desse jeito, percebi, desde cedo, que comida é laço, amor e história – a nossa história. Por isso, hoje, quando folheio o caderno de receitas da minha mãe, repleto de páginas amareladas e manchadas pelo tempo passado na bancada da cozinha, eu entendo que ele não me apresenta apenas receitas, mas também me faz retornar para minhas lembranças queridas, para o tempo em que ela cozinhava e eu só observava.

Na verdade, um caderno conta mais do que isso. E essa foi uma descoberta recente, depois que conheci uma pessoa tão apaixonada por esses acessórios quanto eu, a Débora de Oliveira, historiadora que mergulhou por três anos nos registros culinários de diferentes épocas. O estudo virou tese de mestrado, defendido na Faculdade de História da USP e, depois, se transformou em livro: Dos Cadernos de Receitas às Receitas de Latinha – Indústria e Tradição Culinária no Brasil (ed. Senac). Débora é neta de Silvina, paraibana, mulher guerreira, dona de casa, empreendedora, que sempre cozinhou para a família. Foi na casa da avó que ela apurou o paladar. “Comida é afeto, é descobrir o que você gosta e o que lhe faz bem”, diz Débora.

Além do afeto, a historiadora percebeu que a vida na cozinha e as anotações culinárias são um reflexo do momento histórico e social de um período. Ou seja, para entender tudo isso é preciso olhar para o caminhar da sociedade: por que, durante décadas, as mulheres colavam receitas nas últimas páginas? Por que anotavam os nomes das pessoas ao lado?

Durante a colonização, nada era registrado e o cozinhar era obrigação das escravas. Mas era algo feito no olho, no saber antigo, na tradição oral passada de mãe para filha. Muito do nosso “modo de fazer” tem influência indígena, africana e portuguesa. Depois do fim da escravidão, em 1888, as coisas mudaram. As famílias se estabeleceram na cidade e ficaram mais distantes da roça, onde o frango era morto de manhã, temperado e assado para o almoço. Outro ponto: se não havia mais escravos, quem iria colocar a mão na massa? Existiam as criadas, claro, mas quem disse que as mulheres sabiam ensiná-las ou mesmo orientá-las sobre o preparo dos pratos? Eram moças de fino trato, educadas para servir aos maridos, e preparar os doces finos, como os delicados camafeus. Foi nesse tempo que surgiram os primeiros livros de culinária e as mulheres passaram a anotar seus aprendizados. Nesse momento, os cadernos se tornaram presente de casamento, dado de mãe para filha. “Outros acontecimentos também modificaram o comportamento na cozinha. Em 1910,
surgiu o primeiro fogão a gás por aqui, no palácio do governo. Então todo barão do café queria ter um fogão assim. Mas nem a esposa nem a criadagem sabiam mexer naquilo”, conta Débora. A companhia de gás trouxe, então, professoras da Europa. Foram elas que ensinaram como usar o novo acessório, a acertar o ponto e o tempo de cozimento. Depois, veio o auge da industrialização e a chegada dos alimentos processados, enlatados e de aparelhos como o liquidificador ou o micro-ondas. Como estratégia de divulgação vieram as
receitas nas latinhas, os livros de refeições preparadas em micro-ondas, e assim por diante – foi dessa maneira que as embalagens foram parar nos cadernos.

De avó para neta

Cozinhar para a família era a rotina de Martha Brandão Cocchiaro, avó da jornalista Liliane Oraggio. Martha morreu em 2008, com 99 anos e meio. Ela morava nos Estados Unidos, para onde se mudou na década de 1960, em busca do sonho americano. “Chegando lá, foi ao mercado e comprou um caderno para passar seu antigo exemplar a limpo. Criou um índice e um anexo, onde colocava os recortes de revistas”, conta Liliane. “Quando chegou aos 80 anos, ela me deu o livro”, conta Lili. “Minha avó nasceu em 1908 e casou aos 18
anos. A vida dela acontecia na cozinha, com o marido e os filhos (três meninos) fazendo as refeições em casa. O caderno de receitas era um reflexo das pessoas com quem convivia, dos lugares que frequentava, das festas a que ia”, diz. E continua: “É muita lembrança”. Um caderno de receitas, enfim, está repleto também de sentimentos e memórias guardadas não
apenas no papel mas dentro da gente.



02/01/2018 - 09:00

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