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O jovem monge Ikkyu

Ele era famoso por levar vantagem em todas as conversas. Um dia, desafiado por um grande líder, demonstrou que a melhor solução é o bom humor

Monja Coen – Michel Filho / Agência O Globo

Certa feita, o líder do vilarejo chamou o jovem monge Ikkyu à sua casa. Durante a conversa, o senhor perguntou ao monge: “Você é capaz de pegar aquele tigre pintado na parede?”. “Claro que sim”, respondeu Ikkyu-san. “Traga-me corda e laço, e eu o prenderei.” O senhor saiu rindo da sala e chamou todos os seus amigos para ver a derrota do monge metido a sabichão. 

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“Muito bem, Ikkyu-san. Aqui estão corda e laço. Prenda o tigre”, disse-lhe. O jovem monge, segurando a corda, colocou-se em posição de espera e disse ao dono da casa: “Solte o tigre que eu estou pronto!”. Será que estamos prontos para o que a vida nos trouxer? Será que sabemos responder ao mundo em vez de reagir? É preciso desenvolver a autoconfiança e a capacidade de responder rapidamente às solicitações que surgem no nosso dia a dia. Sem fazer disso um drama, uma luta, uma vitória ou uma derrota. Sem ficar com mágoa e ressentimento, sem ter raiva nem aborrecimento. Mais leveza e alegria no viver. Isso nos ensina o jovem monge Ikkyu, que, sem reagir às provocações com raiva ou com medo, encontrava respostas adequadas. Respostas lúdicas.
Certa vez, uma jovem me procurou e relatou o seguinte: “Eu tinha a chave do apartamento de meu namorado e um dia resolvi surpreendê-lo. Nós não havíamos combinado de nos encontrar, mas comprei uma garrafa de vinho e uns queijos de que ele gostava, e entrei de mansinho. Que surpresa a minha: ele estava dormindo com uma de suas amigas, na cama, na nossa cama, que compramos juntos. Fiquei furiosa. Saí de mansinho do quarto e fui à cozinha. Peguei quatro ovos crus, bati, sem casca, e, antes de ir embora, coloquei um pouco em cada um de seus sapatos. Mesmo com raiva, pude rir, pensando na desagradável sensação, na surpresa que teriam”. Ela não se casou com ele, nem a outra moça, mas continuam amigos até hoje.
Respostas engraçadas, divertidas, têm em si a mensagem de verdade. Sem matar, sem ferir. Sem se matar e sem se ferir. Responder de forma lúdica ao mundo é a mensagem do monge Ikkyu e dessa jovem brasileira que flagrou o namorado com outra mulher. O que o namorado e a amiga fizeram a ela era inesperado, pegajoso e desagradável como ovos crus dentro de um sapato. 

Precisamos estar atentos para responder ao mundo em vez de reagir. Reações podem ser violentas e desagradáveis e nem sempre levam aos resultados esperados. Ações verdadeiras e puras podem transformar o mundo. Por isso, Sua Santidade o 14o. Dalai Lama afi rma: “Compaixão nem sempre vem das entranhas. Tem de ser treinada, praticada através da mente consciente, lúcida, clara”. Quando assistimos a violências e abusos, não sentimos compaixão pelo agressor ou pela agressora. Temos de trabalhar nossos sentimentos e transformá-los em compreensão. Isso não significa aceitar a impunidade. Significa não ódio, não vingança, mas ação correta que leve à reflexão e à correção dos erros.