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As lições de um arquiteto ecológico

Published 29/06/2017

As lições de um arquiteto ecológico - Divulgação

Imagine uma casa confortável, banhada pela luz do sol, construída para proteger os moradores do calor intenso dos trópicos ou do mais rigoroso frio europeu. Agora imagine também que ela foi feita totalmente livre de produtos tóxicos, apta a combater o aquecimento global e ajudar a criar cidades mais agradáveis para viver. Pois bem, aqui está um convite para você vislumbrar o amanhã de um outro jeito. A casa em questão, que também pode ser um escritório, uma escola ou uma igreja, é feita com os mais antigos materiais usados para abrigar o ser humano: terra e madeira.
É com as mãos e o barro, aplicado em diferentes técnicas, que Gernot Minke, pioneiro na área da arquitetura ecológica, constrói casas e outras edificações privadas (como o jardim de infância Waldorf em Sorsum, na Alemanha, o Instituto Indiano de Tecnologia, em Nova Déli, Índia, e o Instituto Goethe, em La Paz, Bolívia) há mais de cinco décadas, inspirando pessoas em todo o globo. Professor aposentado da Universidade de Kassel, na Alemanha – uma universidade jovem, fundada em 1971, e aberta a novas ideias, assim como toda a cidade (vale lembrar que Kassel é berço da Documenta, uma das mais renomadas exposições de arte do mundo) –, ele dirigiu por
40 anos o Laboratório de Pesquisa em Construção Experimental da instituição. Lá desenvolveu meia centena de projetos focados em ecologia e moradias de baixo custo. Graças a ele ainda, Kassel foi a primeira cidade alemã a incluir o telhado verde no código de obras do município.
Minke é autor de centenas de artigos e diversos livros, entre eles Building with Earth, publicado em dez línguas. Como professor, viajou toda a Europa, Américas e Índia, participando de mais de 60 conferências internacionais.
Em janeiro, às vésperas de completar 80 anos (feitos em abril), ele esteve em São Paulo para uma palestra com o coletivo PermaSampa, no Instituto Casa da Cidade, de onde seguiu para o centro de bioarquitetura Tibá, em Bom Jardim, na serra fluminense. Suas paradas seguintes incluíram México, Argentina e Chile.
Com terra crua, Gernot Minke cria tijolos de adobe, constrói abóbadas que vencem grandes vãos, ergue paredes e coberturas com “linguiças” de terra ensacada, projeta telhados verdes e jardins verticais, ensina a fazer reboco fino e tintas naturais. A terra oferece baixo custo com transporte, pois é possível encontrá-la no local da obra, e baixo custo ambiental, já que o barro dispensa processos industriais que consumiriam energia ou gerariam resíduos. Ou seja, a pegada de carbono é praticamente nula. É ainda livre de substâncias tóxicas e proporciona bom isolamento acústico e conforto térmico. Paredes de terra “respiram”, e essa troca de ar com o ambiente externo
garante construções aconchegantes no inverno e frescas no verão. Sem que isso represente risco de infiltração, que fique claro. Em alguns casos, as paredes recebem acabamento com um tipo de hidrorrepelente à base de cacto palma, que faz a água bater na superfície delas e escorrer.
Embora tão confiável, o barro segue muito associado a pobreza, construções rudimentares ou coisa do passado e por isso encontra barreiras na arquitetura de hoje para ganhar as cidades. Mas Minke acredita que isso tende a mudar por se tratar de uma opção, na verdade, bastante democrática. Em países como a Alemanha, destaca o
professor, a terra já é mais usada por pessoas da classe média e alta que querem morar bem sem agredir o planeta. O arquiteto defende, no entanto, que “assentamentos feitos para as populações de baixa renda também sejam construídos com materiais naturais, em vez de elementos pré-fabricados de concreto ou metal”, diz. Assentamentos assim, lembra ele, do tipo que já existe em Kassel, Mühlacker e Reinsberg, além de mais saudáveis, podem custar 50% menos, especialmente quando há mutirões comunitários para algumas etapas.
Para quem se preocupa com o aproveitamento do espaço, uma explicação: pode-se construir prédios sustentáveis de até três pisos com estrutura de madeira. E também é possível erguer edifícios mistos, em que a estrutura é convencional e as paredes de fechamento levam tijolos de barro cru e reboco e tintas naturais – o que já é um grande passo em direção a construções mais sustentáveis…
Aqui no Brasil, Gernot Minke viu a bioarquitetura começar lentamente nos anos 1990 e se tornar, hoje, um grande movimento, que segue o ritmo de outros países latinos com força para crescer cada vez mais, graças à nossa natureza abundante e à urgência por uma arquitetura mais adequada para combater as mudanças climáticas. Vários centros especializados, em diferentes estados brasileiros, como o Tibá, citado anteriormente, e o Ecocentro Ipec – Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado –, em Pirenópolis, GO, provam esse avanço. Recebem todos os anos milhares de estudantes e interessados em técnicas naturais de construção.
Para Minke, uma maneira efetiva de mostrar as benesses da arquitetura natural é aumentar a construção de telhados verdes nas cidades. “Eles reduzem os custos de aquecimento e refrigeração para os usuários, evitam inundações após chuvas fortes, melhoram o microclima da cidade, limpam o ar e têm uma vida útil maior do que qualquer outro sistema de telhado”, afirma. O professor diz ainda que é possível usar tijolos de terra crua, os adobes (que secam em temperatura ambiente, sem queima em fornos – de novo, não há pegada de carbono nisso), para construir as paredes internas de apartamentos e usar reboco de terra no seu interior. Esse reboco cobre as rachaduras que tendem a ocorrer quando a terra seca e garante um fechamento perfeito. (E nunca é demais esclarecer: há um mito de que casas de pau a pique trazem o barbeiro, causador da doença de Chagas. Isso é lenda, pois o barbeiro se instala em qualquer trinca, inclusive em casas de concreto.)
Enquanto muita gente pensa em altas tecnologias para lutar contra o aquecimento global (cimento feito de resíduos de indústrias siderúrgicas, ou vidros refletivos, que não absorvem o calor do sol e, por isso, ajudam a reduzir os custos com ar-condicionado), o arquiteto aposta na simplicidade da terra para obtermos edifícios com baixa emissão de carbono na atmosfera.
A lógica também é simples. “Temos que diminuir a produção de CO2 para reduzir o efeito estufa. E podemos alcançar isso na arquitetura usando materiais menos industrializados e conceitos de projeto que gastem menos energia com ar-condicionado”, resume. A terra, tal como encontramos sob nossos pés, é a aliada perfeita. E uma prova de que, às vezes, para construir o amanhã, é preciso, sim, olhar para trás e resgatar tradições culturais que, de tão vantajosas, não devem ser abandonadas. O mix entre essas técnicas antigas e aprimoramentos atuais merece – e como! – atravessar gerações.
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