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Leptospirose: Vamos entender um pouco mais

As dúvidas sobre a doença são muitas e muitos acreditam que, para contrair a doença precisa estar com ferimento aberto e em contato direto. Será?

leptospirose
A leptospirose é uma doença infecciosa causada pelo contato direto ou indireto de urina de animais infectados pela bactéria Leptospira – Thiradech / Getty Images

As enchentes na minha terra, Rio Grande do Sul, levaram vidas e agora ameaçam a saúde das pessoas. Na última segunda-feira (20/05/24), o Governo do Estado confirmou a primeira morte por leptospirose. As dúvidas sobre a doença são muitas e muitos acreditam que, para contrair a doença precisa estar com ferimento aberto e em contato direto. Será?

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A leptospirose é uma doença infecciosa causada pelo contato direto ou indireto de urina de animais infectados pela bactéria Leptospira, como ratos, principalmente, cães e gatos e foi descrita pela primeira vez em 1880, no Cairo, por Larrey. Porém, foi em 1886 que Weil descreveu minuciosamente quatro casos clínicos em humanos.

Como se transmite?

Em situações de enchentes e inundações, a urina dos ratos, presente em esgotos e bueiros, mistura-se à enxurrada e à lama das enchentes. Qualquer pessoa que tiver contato com a água das chuvas ou com lama contaminadas poderá se infectar. As leptospiras presentes na água penetram no corpo humano pela pele, principalmente se houver algum arranhão ou ferimento. O contato com água ou lama de esgoto, lagoas ou rios contaminados e terrenos baldios com a presença de ratos, também podem facilitar a transmissão da leptospirose. Veterinários e tratadores de animais podem adquirir a doença pelo contato com a urina de animais doentes ou convalescentes.

Quais os principais sintomas da leptospirose?

-Dor abdominal;

-Mal-estar;

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-Olhos vermelhos;

-Dores do corpo, principalmente na panturrilha, costas e abdômen;

-Febre alta, que começa de repente;

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-Dor de cabeça intensa;

-Diarreia;

-Vômito;

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-Calafrios;

-Cansaço;

-Tosse;

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-Náuseas.

Os sintomas de leptospirose normalmente surgem entre 7 e 14 dias após o contato com a bactéria. No entanto, em alguns casos podem não ser identificados os sintomas iniciais da doença, apenas dos sintomas mais graves mostram que a doença já está em uma fase mais avançada.

Entre 3 a 7 dias, após o início dos sintomas, pode surgir a tríade de Weil, que corresponde aos três sintomas que surgem juntos e que são indicativos de maior gravidade da doença, como icterícia, que são os olhos e pele amarelados, insuficiência renal e hemorragias – principalmente pulmonares.

Sintomas de leptospirose na pele

Os sintomas de leptospirose na pele é a vermelhidão na conjuntiva dos olhos, que é a membrana fina e transparente que cobre a parte branca do olho, principalmente no início da doença.

O infectado também pode apresentar pequenas manchas vermelhas, roxas ou marrons na pele e no céu da boca, que duram menos de 24 horas.

Já nos casos mais graves da leptospirose, a pessoa pode apresentar pele e olhos amarelados e manchas roxas em grande parte do corpo.

Como confirmar se estou infectado?

Para confirmar o diagnóstico, o médico solicita o exame de sangue para verificar a presença de anticorpos para a leptospirose ou da bactéria Leptospira, incluindo o método de cultura ou ELISA. Além disso, o hemograma completo, a radiografia de tórax, o eletrocardiograma e a gasometria arterial também são solicitados.

Preciso ser internado?

O médico pode indicar ainda a necessidade de permanecer hospitalizado sempre que surgirem sinais e sintomas de alerta, como:

– Falta de ar;

– Alterações urinárias, como diminuição da quantidade de urina;

– Sangramentos, como pela gengiva, nariz, tosse, fezes ou urina;

– Vômitos frequentes;

– Queda da pressão ou arritmias;

– Pele e olhos amarelados;

– Sonolência ou desmaio.

Estes sinais e sintomas sugerem a possibilidade de complicações que comprometem a vida da pessoa afetada. Por isso, é importante que a pessoa permaneça no hospital para ser monitorada.

Algumas das principais complicações da leptospirose incluem hemorragia, meningite e alterações no funcionamento de órgãos como rins, fígado, pulmões e coração.

Como tratar?

O tratamento para leptospirose varia conforme a gravidade da doença e inclui o uso de medicamentos, hidratação e diálise peritoneal.

Medicamentos

Antibióticos orais como penicilina, doxiciclina oral, estreptomicina, cloranfenicol e eritromicina, são alguns dos medicamentos que podem ser recomendados pelo médico para tratar a leptospirose além de analgésicos e antitérmicos, como paracetamol e dipirona, para controlar a febre e as dores. A metoclopramida é um antiemético que também pode ser indicado para aliviar as náuseas e vômitos.

Hidratação

A hidratação é primordial, pois a leptospirose pode provocar vômitos e diarreia, causando a desidratação e levando ao surgimento de outros sintomas, como pouca urina, cãibras e tontura.

A hidratação pode ser feita com o aumento da ingestão de água filtrada ou fervida, água de coco, chás, soro caseiro ou sais de reidratação oral, por exemplo.

Além disso, nos casos mais graves de desidratação intensa, hemorragia ou complicações renais, pode ser necessário internamento hospitalar para receber soro e eletrólitos na veia.

Existem vários outros tratamentos que vão depender do quadro do paciente obviamente, como a diálise peritoneal que é um tratamento que junto com o uso de antibióticos, tem sido usada para tratar insuficiência hepática e renal grave em pessoas com leptospirose. Nele, o sangue é filtrado e são eliminadas as toxinas acumuladas no organismo quando os rins não funcionam corretamente. Nesse tratamento, usa-se uma solução de diálise, que fica em uma bolsa, que passa para o peritônio através de um cateter que é colocado no abdômen. Ainda podem ser indicados o corticoide injetável metilprednisolona nos casos em que o pulmão foi afetado e até mesmo a ventilação mecânica, cada caso é um caso e espero que não haja necessidade de saber mais sobre!

A leptospirose tem cura?

Sim, a leptospirose tem cura, principalmente quando essa doença é diagnosticada e tratada adequadamente na fase inicial.

Prevenção

Embora quem esteja no Sul seja quase impossível evitar o contato com água ou lama de enchentes, pelo menos é válido que impeça que crianças nadem ou brinquem nessas águas ou outros ambientes que possam estar contaminados pela urina dos ratos. Pessoas que trabalham na limpeza de lamas, entulhos e desentupimento de esgoto devem usar botas e luvas de borracha (se isto não for possível, usar sacos plásticos duplos amarrados nas mãos e nos pés).

O hipoclorito de sódio a 2,5% (água sanitária) mata as leptospiras e deverá ser utilizado para desinfetar reservatórios de água (um litro de água sanitária para cada 1.000 litros de água do reservatório). Além disso, os locais e objetos que entraram em contato com água ou lama contaminada precisam ser higienizados em uma solução com um copo de água sanitária colocado em um balde de 20 litros de água. Durante a limpeza e desinfecção de locais onde houve inundação recente, deve-se também proteger pés e mãos do contato com a água ou lama contaminadas.

Bibliografia

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