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Insatisfação crônica: Um sentimento que pode trazer sérios problemas para a saúde da pessoa

Nem todo mundo consegue se sentir realizado, mesmo diante de tantas conquistas no dia a dia. À essas pessoas, o neurocientista Fabiano de Abreu explica que a insatisfação crônica pode ser um grande problema na saúde mental

Bons Fluidos Publicado terça 26 outubro, 2021

Nem todo mundo consegue se sentir realizado, mesmo diante de tantas conquistas no dia a dia. À essas pessoas, o neurocientista Fabiano de Abreu explica que a insatisfação crônica pode ser um grande problema na saúde mental
Problemas da insatisfação constante para o emocional - Freepik/wayhomestudio

O ser humano gosta de ser desafiado. E se sente realizado quando é acometido por aquela sensação gostosa de dever cumprido, chamada satisfação. No entanto, algumas pessoas não conseguem sentir este prazer, vivendo um estado de insatisfação constante. Elas podem estar com sua saúde mental em risco e não percebem a gravidade desta situação. Conforme explica o PhD, neurocientista, psicanalista e biólogo Fabiano de Abreu, “sentir que algo te falta deveria ser motivo de busca e não de reclamação. Deveria te impulsionar a ir de encontro à satisfação, mas muitas pessoas desenvolvem uma habilidade sabotadora de alimentar insatisfações em vez de valorizar as suas conquistas”.
 
Do ponto de vista biológico, Fabiano observa que “os seres humanos precisam da sensação de prazer. O cérebro libera dopamina, um neurotransmissor que causa dependência, por ser altamente euforizante. As primeiras conquistas são sempre de maior impacto emocional, por marcar profundamente as circuitárias neuronais com a sensação de prazer do desejo realizado. Em busca dessa primeira experiência, seguimos tentando resgatar essa mesma memória afetiva positiva, com deslocamentos e substituições. Já que a experiência original jamais se repetirá”.

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No entanto, mesmo diante de suas conquistas, muitas pessoas se sentem insatisfeitas e buscam diariamente algo que seja capaz de liberar novamente uma “cascata de dopamina” em seu cérebro. Segundo Abreu, isso recebe o nome de “insatisfação crônica”. “Ocorre quando a pessoa está viciada em prazer e não conseguem valorizar o que já possui”, sintetiza.
 
Os efeitos disso são devastadores para a saúde mental, alerta o neurocientista. “Nosso cérebro primitivo tende a sentir as emoções negativas com maior intensidade, por ser estas, altamente necessárias à sobrevivência e preservação da espécie, esse é um registro pré-histórico que nos manteve vivos até então. Compreender esse mecanismo nos faz aceitar o programa biológico, porém, nos retira a competência de desenvolver um sistema emocional/racional equilibrado e lógico. Além disso, a mente funciona como um equipamento biocomputacional de alta performance. Basta sermos um programador a altura da competência dessa ferramenta, para desenvolvermos ‘softwares’ que promovam a reconfiguração e formatação mais adaptativa e funcional do nosso sistema original”.
 
Como superar isso?
 
É possível quebrar as correntes que prendem a pessoa a essa insatisfação crônica. “Precisamos desenvolver a capacidade de nos sentirmos gratos pela vida que temos e por tudo de bom que existe nela. Essa gratidão traz alegria à vida, e a alegria é um combustível que promove a satisfação pelas pequenas coisas. Quando efetivamente colocamos as coisas a serviço das pessoas e não invertemos a posição dessa relação sujeito vs objeto, conseguimos entender, de fato, o para quê, em vez de, por quê estamos aqui”, completa Fabiano.

Último acesso: 04 Dec 2021 - 01:55:15 (1045923).