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Meditação: o incrível curso de mecânica dentro de nós mesmos

Na coluna desta semana, Jamar Tejada conta sua experiência pessoal com a meditação e como ela foi fundamental para que ele encontrasse respostas dentro de si

JAMAR TEJADA Publicado quarta 6 janeiro, 2021

Na coluna desta semana, Jamar Tejada conta sua experiência pessoal com a meditação e como ela foi fundamental para que ele encontrasse respostas dentro de si
Entenda como a meditação é uma viagem para dentro de si - Pexels/ Sam Kolder

Ouvia falar em meditação, mas não entendia bem. Achava que para meditar eu deveria me inteirar nos estudos do hinduísmo ou budismo, me matricular numa escola para meditação, comprar aquelas estatuetas de Budha ou Ganesha e acender muito incenso em casa -- coisa que minha rinite não permite! --. Criei várias falsas ideias e, por achar que precisava de todo esse arsenal, desisti de ir atrás. Meditação para mim era coisa para quem já havia nascido zen por natureza.

O fato é que durante essa pandemia, crises de ansiedade bateram muito mais forte do que o esperado em mim (e em toda população mundial), logo eu que sempre me considerei um cara tão centrado, me descentralizei total. Tive que lutar contra duas ideias que me atormentavam dia e noite (e a toda população mundial): o medo das contas e o desespero de ficar doente.

Moro sozinho em São Paulo, toda minha família mora no Sul, se eu adoecesse quem cuidaria de mim? E se meus pais adoecessem, quem tomaria conta deles? Se eu tiver que ficar em casa como que a minha empresa vai andar? E se meus funcionários adoecerem, como atender meus pacientes? E se eu morrer, quem vai cuidar minha cachorra? E se eu partir, as contas vão ficar para meus pais? E meus sobrinhos, gêmeos, que vão nascer? Não posso partir sem conhecê-los!

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Mente barulhenta

Pensamentos e mais pensamentos negativos tomavam conta de mim. Eu despertava às 3 da manhã e não dormia mais, o cansaço, a preocupação, o medo, o estresse, as contas... tudo foi embolando de um jeito que minha ansiedade parecia aquelas bolas de feno que rolam ao vento em filmes de faroeste!  Até que certa noite, para piorar ainda mais a situação, comecei a ouvir um zumbido interno, um zumbido baixinho e irritante que conseguia prender minha atenção mesmo com quaisquer outros barulhos externos, o chiado de dentro da minha cabeça! 

Procurei ajuda de amigos médicos que me reviraram, exames e mais exames. Aquilo não era normal! Eu estava com labirintite ou algo ainda mais sério, não era possível ficar irritado naquele nível. Exames todos perfeitos. Já sei, endorfinas são a solução! Me acabava na academia, chegava em casa com corpo exausto e a mente mais inquieta do que nunca. Então como farmacêutico naturopata que sou, parti para as plantinhas mágicas: valeriana, passiflora, melissa, kaka-kawa, pfaffia, ginseng, ginkgo, mulungu, rhodiola. Elas me ajudaram, sentia-me mais relaxado, passei a dormir melhor, mas o zumbido continuava ali, assim como o estresse, a ansiedade, o medo.

Será que estou sofrendo interferência espiritual? Não há outra explicação! Oração era minha última esperança! Sinceramente pensei que fosse enlouquecer! Mas como buscar ajuda espiritual se as igrejas estão fechadas? Quieto no meu cantinho, sentado na minha poltrona preferida que parece a poltrona do Papai Noel, comecei a orar, orar e orar e percebi que até mesmo a oração era um barulho a mais desnecessário dentro da minha cabeça! O que eu precisava mesmo era de silêncio extremo -- impossível de acontecer com todo a loucura que é a cidade de São Paulo.

Tentei prestar atenção nesse barulho da minha mente, tentei isolá-lo, achar lá dentro da minha cabeça a fonte de toda aquela perturbação! E foi assim, sem querer que a meditação surgiu em minha vida, na verdade foi ela que me achou. A meditação é um exercício, um treinamento que deve ser realizado num momento reservado para a reflexão e o silêncio consigo mesmo, fora da loucura e ruídos do nosso dia a dia. É um momento de pausa que nos permite retornar ao ponto central de nós mesmos nesse mundo acelerado onde andamos desgovernados. 

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Eu achei a meditação, ou melhor, ela me achou

Encontrei a meditação no momento que minha vida estava acelerada demais, sem freio, na qual a minha única chance para não me acidentar era aguardar o fim da gasolina. Que viagem seria essa com o carro parado? Precisamos combustível, precisamos alinhar os pneus e testar os freios, mas não adianta em nada ter um carro perfeito se não soubermos conduzi-lo! A meditação é aquele curso de mecânica avançada, que vai além de aprender a trocar os pneus, que te dá os passos até da elétrica para que possa dar a partida sem enguiçar no caminho!

A meditação chegou num momento em que eu não mais sentia meus próprios pés no chão. Fui impulsionado à força para olhar dentro de mim. Quando acreditei ter chegado lá, encarando meu silêncio interno, tentando encontrar meus barulhos, foi como se eu estivesse dentro de um enorme ginásio onde as luzes estavam apagadas e não foi nada revelador, foi estranho, até meio assustador, porque me deparei com a imensidão do meu pensamento. Esse primeiro encontro consciente foi, na verdade, muito mais desorientador que orientador, entendi que precisava praticar mais esses caminhos internos, de forma que algum dia, fechando os olhos em poucos segundos descobrisse o roteiro certo para chegada até os meus medos, o que não vai acontecer de forma fácil, pois nossos medos se escondem a cada momento em locais diferentes, justamente  para nós não o encontrarmos.

O que a meditação me proporcionou

A meditação nada mais é que um treino, um treino em que aumentamos nossa compaixão, equilíbrio emocional e paz interior, um exercício que exige constância e disciplina e é acima de tudo uma forma de nos familiarizarmos com as engrenagens da nossa mente, a ponto de sabermos exatamente qual parafuso devamos afrouxar ou apertar para diferenciarmos quais estados mentais trazem angústia para você e para os outros e quais te libertam desses medos. Ninguém quer sofrer, ou olhar através da janela da sua alma, mas o que não podemos fazer é fechar os olhos para a causa do sofrimento.

Parece uma loucura tudo isso que estou escrevendo, mas lhe garanto que quando começar a fazer esse curso de mecânica meditacional vai entender direitinho o que estou falando. Estou ainda no nível 1, meu grande erro ainda é a inconstância, para passar para a próxima fase é preciso o mais importante: presença! A meditação pode te ajudar além do controle dos pensamentos, pode auxiliar no controle da ansiedade, nos distúrbios alimentares e obsessivo-compulsivos, no tratamento da depressão e diminuição das chances de recaída e até mesmo no controle da glicemia e pressão alta. Alguns passos importantes para você que vai começar agora:

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Dedique um pequeno período do seu dia para esse desligamento do mundo exterior. Você pode meditar ao acordar para dar início ao dia com mais foco, menos ansiedade ou quando for se deitar, para acalmar a mente antes de dormir. Um período de 15 a 20 minutos já são suficientes, mas não se apegue ao tempo, se apegue ao seu silêncio externo. Não fique pensando: Será que já passaram os 15 minutos? O objetivo é justamente não pensar, é encontrar esse vazio, se faz-se necessário administrar seu tempo programe um alarme em seu celular.

Escolha um local calmo, onde possa se sentar tranquilo, como uma sala, um jardim, um sofá, na própria cadeira do escritório ou até mesmo na cama , deitado, o importante é  estar em um ambiente tranquilo e com mínimo de distrações para facilitar a concentração.

Fique numa posição confortável, de acordo com as técnicas orientais, a postura de lótus, em que se permanece sentado, com as pernas cruzadas e com os pés sobre as coxas, logo acima dos joelhos, e com a coluna reta é a postura ideal,  mas  isso não é uma regra , sendo possível ficar sentado ou deitado em qualquer posição, desde que esteja confortável, com a coluna reta, ombros relaxados e pescoço alinhado com um apoio para as mãos, que podem repousar no colo, com o dorso de uma sobre a outra, ou ficar uma em cada joelho, com as palmas para baixo ou para cima. Em seguida, deve-se manter os olhos fechados , corpo relaxado. Se você forçar uma posição que sinta dor, seu foco será a dor e o foco da meditação não é a postura corporal e sim a chamada interior!

Controle sua respiração, dê uma atenção especial a ela, exercite os pulmões completamente. Faça uma inspiração profunda, puxando o ar, utilizando a barriga e o tórax e uma expiração lenta e prazerosa. Preste atenção nesse circuito de entrada do ar, faça com que sua respiração seja seu guia!  Inspire profundamente e libere o ar pausadamente, conte até 4 na inspiração e repita para a expiração, controle-a! Essa controle assim como a posição deve  ser confortável, sem forçar. Não esqueça, a meditação deve ser prazerosa!

Foco! Na meditação tradicional um foco é necessário para manter a atenção, geralmente um mantra, que é qualquer som, sílaba, palavra ou frase que deve ser repetida várias vezes para que exerça um poder específico sobre a mente, e que auxilie a concentração para a meditação, que deve ser vocalizado ou pensado pela criatura que está meditando e, de preferência, se for um mantra de origem no budismo ou Yoga, seja ensinado da forma correta por um professor. O "om" é o mantra mais conhecido, e tem o poder de trazer paz interior durante a meditação.

Mas também é possível ter outros tipos de foco, como uma imagem, um som externo, a própria respiração ou até mesmo algum objetivo que deseja se alcançar. O importante é que, para isso, a mente esteja calma e sem outros pensamentos.

Vão surgir diversos pensamentos durante a meditação, nossa mente nos prega peças e quando isso acontecer não entre em conflito com eles, deixe-os vir e depois partir. Com o tempo e a prática, se torna mais fácil se concentrar melhor e quando chegarmos lá no módulo avançado, em poucos segundos já iremos alcançar nossas engrenagens.

Você deve estar se perguntando se o barulho interno na minha mente sumiu... Não, continua aqui enquanto escrevo esse artigo, incessantemente! A diferença é que agora ele não mais desnorteia meu dia, a cada dia estou aprendendo a acessá-lo de formas diferentes e logo irei desparafusá-lo! A cada prática de meditação fixo mais em mim mesmo, mas não me sinto preso ao chão, sinto-me aprendendo a bater minhas asas, equilibrando minha loucura, encontrando meu centro e tendo a certeza de que posso ser tudo, só não me permito ser normal. Namastê!

JAMAR TEJADA


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Último acesso: 24 Sep 2021 - 00:46:10 (1044119).