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Até que a morte nos separe

Animais também sofrem com a perda do dono e, como pessoas, podem precisar de ajuda para superar a despedida

Até que a morte nos separe – Shutterstock

Apelidado de Pirata, um cãozinho vira-lata virou notícia nos principais jornais da América do Sul porque se recusa a ir embora do hospital onde seu dono deu entrada e faleceu, na Argentina. Histórias de animais que vão morar no cemitério onde estão seus donos, que não deixam a casa onde moravam com ele ou que demonstram mudança de comportamento em função da perda não são raras. Foi assim com Faísca, cachorro de um morador de rua em São Paulo que não se adaptou à adoção: preferia dormir no mesmo lugar, embaixo do viaduto. 

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Nada é tão doloroso como a perda de alguém que amamos. E a morte de um ente querido não é difícil apenas para pessoas. Cães e gatos também sofrem quando perdem companheiros – da mesma espécie ou humanos. O luto dos animais existe e pode ser mais intenso quando eles estão vinculados a um só dono ou parceiro. “Muitos mostram profundo pesar”, relata Marc Bekoff , professor na Universidade de Colorado (EUA) em artigo publicado em 2011. “É arrogante e errado achar que nós somos a única espécie que tem evoluído no sofrimento e no luto”, diz ele, autor de livros sobre sentimentos dos animais e sua relação com humanos. 
No Japão, um ícone é a história do cão Hachiko, da raça Akita, que passou quase dez anos visitando diariamente a estação de trem onde seu dono, falecido subitamente, chegava do trabalho. Sua trajetória virou até fi lme estrelado por Richard Gere (Sempre ao Seu Lado, 2009), e uma estátua permanece até hoje onde viveu o cão em homenagem à sua lealdade. “Essas histórias não me surpreendem. O amor une grupos e, hoje, se expande entre espécies”, comenta a veterinária Rúbia Burnier. 
Segundo ela, animais que perdem sua companhia sentem “um abandono de si mesmo” e podem ter um quadro depressivo que agrava doenças ou desencadeia falhas nos rins e fígado, órgãos ligados aos sentimentos. Isolamento, falta de apetite e de interesse nas atividades do dia a dia são sinais claros de que nossos animais, da mesma forma que nós, carecem de ajuda para superar a despedida. É só pensar que passamos uma vida construindo uma relação de amizade, confiança e parceria com nossos animais domésticos e, se um dos dois vai embora, a dor da perda se assemelha à de um membro da família.
A tristeza de quem perde um pet, por outro lado, também pode ser de difícil compreensão e aceitação social (ainda é comum escutar que “era só um cachorro”). Para isso, existem terapias e até uma associação sem fins lucrativos nos Estados Unidos voltada a prestar assistência a quem perdeu um animal de estimação, a Association for Pet Loss and Bereavement.   
Para os cães, gatos e animais em luto é preciso o cuidado de alguém que os ajude a retomar a rotina e criar novos vínculos. Os animais superam a perda com atenção e paciência. Precisam de um ombro amigo, como nós, que já contamos com eles nos tempos difíceis.
JÚLIA REIS é jornalista, mora em São Paulo e cria dois gatos e dois cachorros. Todos vira-latas e adotados. A Rogue é uma cadela preta e esfomeada; o Crisp, caramelo, come os móveis. O Tripel é um gatinho negro de três pernas que adora caixas de papelão; o Pilsen, amarelo, está sempre em cima ou dentro dos armários.