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Olhos de mar

Quando estamos absolutamente presentes naquilo que fazemos, até um mergulho no mar, num dia calmo, pode ser pura meditação

Monja Coen – Michel Filho / Agência O Globo

Meditar é como entrar no mar. No início, só percebemos as marolas à beira da praia. Mas o mar não são apenas as marolas, embora as marolas sejam o mar. Da mesma forma, há pensamentos, estímulos de tudo o que recebemos desde antes de nascer, que podem surgir em nossa mente. 

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Observamos. Assim como observamos as marolas antes de entrar no mar. Depois sentimos a água nos pés e as marolas se quebrando em nós. Sentimos os pensamentos… sentimentos..
Mais adiante, são ondas que chegam. Há mares tranquilos onde podemos nadar. Outros onde apenas podemos pular. Há mares quentes, mornos e frios, gelados. Há mares verdes, azuis, dourados. Mares brancos pela luz do luar. E a espuma, espuma do mar. 
Aprendemos a nadar. Escolhemos um grupo, uma tradição de prática meditativa e seguimos as instruções de alguém que saiba. Flutuamos, boiamos, batemos o pé. Usamos boias, alguém nos segura pelas mãos.     A comunidade, chamada de Sanga, as pessoas que praticam juntas. Os sinos, os encontros, as conversas, os livros. Aprendemos a nadar. 
Ainda não podemos ir sós a praias desertas. Vamos com outras pessoas, nos retiros, com o(a) salva-vidas a nos observar.     Pode haver peixes no mar. Algas-marinhas. Pode haver tubarões e águas-vivas. Por isso, o(a) salva-vidas coloca avisos e nos indica o melhor lugar.
Entramos no mar, pulamos as ondas, uma a uma, mergulhamos por cima e por baixo da arrebentação. Vamos mais fundo. Há quem olhe por nós. Se houver correntezas, cuidado. O mar é bonito, o mar é malvado. Arrasta pessoas como troncos quebrados. Um dia conseguimos mergulhar bem no fundo. Com máscara ou sem máscara. Com oxigênio ou sem ele. 
Mergulhamos e nos sentimos uma gota de água do mar. Já não há um eu, uma água, uma jangada, uma bolha. Apenas o estar presente e inteira com toda a vida.  Mas não ficamos lá. Há ondas enormes para surfar. É preciso saber se equilibrar. Para a direita? Para a esquerda? Temos, sim, de saber voltar. Voltar para a praia. Voltar a observar o mar. As ondas, as espumas, as marolas. 
Sentados na areia, pernas cruzadas. 
Zazen. 
Voltando a ser gente.     
Olhando o passado, o futuro e o presente. 
Com olhos verdes. 
Olhos imensos. 
Olhos de mar. 
Rafaela, olhos de mar, é minha neta – mãe de meu primeiro bisneto –, que ama  surfar. “O mar é minha vida, minha vida é do mar.”
Quando o nosso olhar se torna imenso e profundo como os oceanos passamos a conviver em harmonia com tudo e com todos. Somos da mesma matéria-prima e estamos interligados a cada partícula cósmica. Aprecie