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Erudição e sabedoria

Qual o saber que realmente importa? Lembre-se de se fazer esse questionamento antes de julgar alguém cujo conhecimento é diferente do seu

Monja Coen – Michel Filho / Agência O Globo

Certa feita, um jovem de um povoado pequeno retornava à casa de seus pais. Havia passado anos fora, estudando. Formara-se com louvor na universidade e, como um bichinho, caminhava de peito e nariz erguido. Para chegar ao seu vilarejo, precisava atravessar um grande rio. Contratou os serviços de um senhor que tinha uma balsa. Atravessavam o rio quando houve uma linda revoada de pássaros. O jovem perguntou ao remador idoso: “O senhor sabe por que os pássaros voam? Qual a estrutura mecânica que lhes permite voar?”. “Não sei. Sei apenas que voam.” E o jovem retrucou: “Mas como o senhor é tolo. Perdeu um terço de sua vida sem esse conhecimento”. 

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Remando por mais algum tempo, viram passar sob a jangada um cardume de peixes brilhantes e rápidos. O jovem interpelou o remador idoso: “O senhor sabe por que os peixes nadam?”. E o remador se desculpou dizendo: “Sou idoso e nunca saí deste barco. Sei apenas que os peixes nadam e nada mais”. “Que lástima!”, exclamou o jovem. “Sem estudos, sem conhecimento, é como se o senhor houvesse perdido metade de sua vida.” 
O remador idoso se calou e continuou remando. Depois de algum tempo, a água subiu e ameaçava afundar a jangada. O remador perguntou ao jovem: “Sabe nadar?”. E o jovem, assustado, respondeu: “Não, não sei, por isso o contratei”. “Pois o senhor acaba de perder toda a sua vida.”
A história nos fala da tolice do orgulho. Quando aprendemos um pouco e achamos que sabemos muito. O desrespeito que algumas pessoas podem vir a demonstrar por outras que não estudaram. No entanto, a sabedoria está além dos estudos acadêmicos. A sabedoria da vida e da morte. 
Também nos faz pensar sobre a compaixão do remador. Mesmo tendo sido humilhado pelo jovem, teria ele deixado o tolo se afogar? Ou teria tentado ajudá-lo?
No filme indiano As Aventuras de Pi , um jovem sobrevive a um naufrágio e se vê preso a um pequeno barco e a um tigre feroz. Afinal, o tigre feroz seria ele mesmo? Que aspecto de nós é a fera que deve ser domesticada, amansada, cuidada e amada? Que aspectos de si mesmo você está alimentando? 
Podemos cultivar a compaixão e a ternura. Podemos cultivar o cuidado e a brandura.Podemos cultivar o rancor e a vingança. Qual a sua escolha? 
Se eu fosse o velho remador, diria: “Vamos, então, usar sabedoria e desprendimento. Você terá de aprender a boiar e eu vou puxá-lo até a margem. Não se exaspere. Lembre-se dos pássaros voando e dos peixes nadando. Todos estão em seu elemento. Mantenha a cabeça na superfície da água e o levarei à margem”.
Qual é o seu limite? Podemos nos tornar seres ilimitados? Aumentamos nossos limites por meio da prática incessante do Caminho Iluminado?
A escolha é de cada pessoa. Podemos alimentar a sabedoria verdadeira e a compaixão ilimitada. Mas é preciso treino e paciência. A prática e o treino da paciência se dão somente por intermédio da prática e do treino da paciência. – Monja Coen é fundadora da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil e, com suas palavras amorosas, convida à prática do respeito ao próximo. Publicou pela ed. Planeta, A Sabedoria da Transformação: Reflexões e Experiências , de onde extraímos o texto ao lado.