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Escolhas

Dependendo das causas e condições, o que aparentemente pode dar a impressão de não ser nada de mau pode, sim, machucar o outro

Monja Coen – Michel Filho / Agência O Globo

Um homem sábio, querendo manter sua mente desperta, passou a meditar sentado no tronco de uma árvore alta. Se adormecesse, cairia da árvore. Um erudito respeitado, com mais de 80 anos, ouvindo falar dele, foi interpelá-lo: “O senhor é considerado um grande sábio”, disse. “Então me diga: o que é mais importante nesta vida?” “Não fazer o mal, fazer o bem e fazer o bem a todos os seres”, respondeu o sábio. O outro, franzindo a testa, disse: “Grande coisa! Até uma criança de 3 anos sabe disso!”. E o sábio respondeu: “Mas nem mesmo um homem de 80 consegue pôr isso em prática”. 

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O erudito talvez esperasse ouvir uma palestra, citações de outros sábios e livros sagrados. A frase simples e direta o surpreendeu. Mas a resposta final o pegou por inteiro, e ele reconheceu o quanto ainda estava distante da perfeição. O que é não fazer o mal? Dependendo das causas e condições, o que aparentemente pode dar a impressão de não ser nada de mau pode ser um grande crime. Há alguns anos, uma senhora que sempre fora fi el ao seu marido e recriminava muito sua tia, que teve muitos amores fora do casamento, apaixonou-se por outra pessoa. Veio me procurar. Lembrei-me de uma história que li num livro judaico. Da mesma forma que essa senhora veio falar comigo, houve uma que fora se aconselhar com um rabino. Para sua surpresa, depois de ouvir o relato, o rabino deu uma boa risada e disse: “Que maravilha! Que escada maravilhosa! Deus nunca me deu uma escada como essa!”. A senhora ficou estupefata. Esperava um conselho do tipo “faça” ou “não faça”. Mas ele apenas apontou-lhe que era uma oportunidade de subir ou de descer. Não era necessário dizer mais nada. Da mesma forma, aconselhei a praticante que me procurara. 
Optar por ter um caso extraconjugal pode provocar muitas tristezas e sofrimentos. Se por um momento há a alegria desse amor proibido, depois da doçura vem o amargor. Ela escolheu provar desse amor. Sofreu muito e fez sofrer muitas pessoas. Seu companheiro também era casado. Mentiram e se afundaram em conversas confusas. Foram descobertos. Ela queria se divorciar para ficar com ele. Ele preferiu ficar com a esposa, que anos depois veio a dizer que nunca fora capaz de perdoá-lo, que o odiava e odiará até a morte. Outro caso semelhante fez gerar um bebê. Mas há também quem escolha subir a escada. Por mais difícil que seja, abandona a alegria momentânea em busca de um estado mais pleno de contentamento – o de manter seus compromissos.
Sempre recomendo a meus discípulos e discípulas que mantenham seus votos. “A rocha pode apodrecer, mas meus votos, não” é uma frase célebre do budismo. Uma rocha dificilmente se desfaz. Leva séculos e séculos para que se transforme em pó. Nossos votos e comprometimentos devem ser assim, mais firmes do que as rochas. Essa é a maneira de beneficiarmos todos os seres.